quarta-feira, junho 14, 2017

Obediência

Há pouco tempo resolvi rever o filme Experimenter do realizador Michael Almereyda  e com um par de fantásticos atores como é o caso de Winona Ryder e de Peter Sarsgaard.  É um dos  meus filmes preferidos a par de Gátaca, este último do realizador  Andrew Niccol. Enquanto o revia   dei por mim a pensar o quanto os experimentos do psicólogo experimental  Stanley Milgram continuam tremendamente  atuais. De facto, Experimenter traz-nos um fiel retrato da natureza humana, demarcando de um modo fantástico a sua fragilidade, sublinhando a sua inconsciência e expondo as propensões comportamentais em situações que  nos são familiares. As demonstradas experiências de Milgran, evidenciam as tendências humanas para comportamentos de obediência cega que nos levam a questionar ou a perceber o porquê do holocausto nazi e das"aceitação" de muitas  ditaduras sangrentas que proliferam infelizmente neste nosso planeta. O estudo realizado por Milgram acerca das reações individuais face a indicações concretas de outros, utilizando a simulação de eletrochoques, revelaram até à saciedade o cumprimento do Homem face à execução de ordens dadas, mesmo que isso envolvesse o sofrimento e a própria vida de outro ser humano. Secenta e cinco por cento dos sujeitos em estudo obedeceram até ao fim da experiência, administrando choques que, hipoteticamente, levariam à morte do indivíduo que os recebera. É muito interessante observar a reacção de todos aqueles que realizaram o procedimento experimental. De facto, quase todos eles afirmaram posteriormente, que se julgavam incapazes de efectuar tal crueldade para com outrem, mas que ali em face a alguém de "bata branca" que os mandava prosseguir com os choques, sentiram-se compelidos a obedecer sem questionar essa ordem tão cruel. Poucos foram os que se rebelaram, e os que o fizeram saíram do experimento zangados consigo próprios e com quem os obrigava a prosseguir com aquele horror. Os que ficavam até ao fim ficavam  tão desanimados e tão afetados que praticamente não conseguiam posteriormente olhar olhos nos olhos com a "vitima" dos electrochoques.
Este magnífico e bem realizado filme (que passou  bem despercebido aquando da sua exibição no cinema em Portugal) é bastante elucidativo da  condição humana e de todos os fenómenos do universo da obediência cega, que se repetem, contínua e sistematicamente  ao longo da História da Humanidade. É também a a meu ver um filme excepcional baseado na história de um grande e esquecido estudioso do comportamento humano.    

terça-feira, junho 06, 2017

Unidas pelo Amor

Está aí em cartaz uma obra cinematográfica nuito boa do jovem realizador polaco Tomasz Wasilewski. 
O filme chama-se United States of Love ,Estados Unidos Pelo Amor,e é a meu ver um filme extraordinário, posto que  o que aí vemos é o amor que perpassa por quatro mulheres sem que alguma o alcance por mais esforços que façam nesse sentido. O filme está construído num mosaico bem interessante em que acabando a historia de uma faz-se a ligação à história da outras sem que as linhas condutoras da ação sejam cortadas entre elas. Todas se conhecem, e todas elas vivem as sua solidão da forma mais triste possível, carregando o fardo de um amor não correspondido numa sociedade que se abre ao Ocidente (anos oitenta muito bem caracterizados através das roupas, penteados e modus  vivendi das personagens), mas que continua profundamente machista. Assim temos, Ágata que despreza o marido porque desenvolveu uma obsessão amorosa quase destrutiva pelo pároco local. Vinga-se fazendo sexo com ele (que  se arrasta atrás dela como um cachorro), usando-o apenas e só como instrumento para a lembrança do homem que ama: o padre. Até a filha ela maltrata, posto que só tem olhos para um ser que ela sabe ser  inatingível.
 O próprio ato sexual feito por esta mulher o o marido é animalesco e assustador, pois nada ali é amoroso, nada ali é digno de ser visto, tudo é violento pois só assim ela consegue sublimar a sua obsessão por alguém que ela sabe à partida que nunca terá. 
Renata  professora de literatura é levada à reforma pela diretora da escola onde trabalha. Esse seu local de trabalho era a sua segunda casa. Desocupada e vivendo nos subúrbios, zonas essas que o realizador filma soberbamente de forma a mostrar-nos como é viver em ilhas de prédios sem cor e sem alma, acaba por ter tempo livre para poder espiar o objecto do seu amor: Marzena, a jovem professora de educação física do colégio onde outrora trabalhava. É também um amor obsessivo, idêntico ao amor que ela tem pelos seus lindos pássaros que voam livremente pela sua casa. Esta casa é o seu refugio, decorada de modo à mesma se evadir da solidão em que se encontra emersa e que a faz estar em constante alerta para as chegadas e saídas do objecto da sua paixão. 
Iza a diretora do colégio, é uma mulher poderosa. Arranja-se bem, veste-se em consonância com o cargo, mas esconde um segredo. É amante há vários anos de um homem casado. Ela pensa que este ao enviuvar, irá  abrir-lhe finalmente as portas da sua casa e assim darem azo ao seu amor. Vai enganar-se redondamente, pois este já não a ama nem a pode ver à frente. O machismo dos homens é aqui posto à prova e a  história de Iza é a  meu ver a que mais mexe com o espectador. Ela é obsessivamente perseguidora no seu amor, quase doentio, por um homem que não hesita em a violentar fisicamente batendo-lhe para se libertar dela. Ela não se quer libertar dele e luta até à crueldade final. Aterrador. 
Por último temos a jovem Marzena objeto de desejo e de amor de Renata. Uma ex miss  da cidadezinha onde vivem, que nunca singrou em nada que queria, ou seja, o mundo da moda e por arrasto o da fama. Boa profissional, jovem e bonita procura o amor da forma mais torpe. Envolve-se com homens que ela julga que a colocarão no mundo que ela ambiciona, mas é óbvio que nada conseguirá. O que querem é o seu corpo jovem e disponível. Apenas a irmã Isa e Renata gostam dela. Iza através do seu amor fraternal tenta cuidar dela e a cena da realização do bolo de anos é disso exemplo e Renata que faz tudo para chamar-lhe a atenção sem que contudo Marzena se aperceba disso. 
Estão todas unidas por amores impossíveis, unidas na sua solidão e profunda tristeza. O sexo é um refugio, mas até isso é feito de uma forma feia e grosseira. 
Wasilewski não hesita em filmar corpos tal como eles são, com todas as suas im-perfeições. Não há fotoshop, o que vemos ali são os corpos daquelas mulheres e daqueles homens. A cena da piscina remeteu-me para a cena de abertura do filme Animais Noturnos do realizador Tom Ford. Os corpos tal como eles são em toda a sua plenitude. Soberbo!
No fim, saímos do cinema, eu pelo menos sai, não com uma sensação amarga de boca, mas sim com a sensação de  como é difícil alcançar o amor e como é digno de admiração a luta desenvolvida pelo ser humano para que tal seja possível. O Amor aqui está apenas na literatura e na bíblia.
Na literatura  que Renata lê para os seus alunos e que o pároco profere nas sua homilias e nas aulas de catecismo. Não existe dentro das casas, não existe entre os casais.
 No fundo aquelas mulheres acabam por ser o espelho de uma sociedade polaca em transformação acelerada, onde a mais profunda solidão e tristeza se agarra à pele destas mulheres (e no fundo à pele dos homens que com elas se cruzam)  cobrindo-os a todos com o seu manto quase irrespirável. 
De facto, um filme muito bom!

sábado, junho 03, 2017

O In-Conformismo

Já Aristóteles afirmava “O Homem é por natureza um animal político”. Somos seres naturalmente sociáveis, tendendo para a constituição de comunidades, necessitando de interação humana, de uma vida inserida num círculo coletivo partilhado.
O Homem, nesta perspetiva, anseia a aprovação dos que o rodeiam, necessita de uma espécie de aceitação que passa pelo seu “eu” individual, como também pelo “eu” inserido na sociedade. Deparamo-nos muitas vezes com a dualidade da nossa identidade, assumindo uma dupla caracterização que difere consoante o olhar, ou seja, conforme a entidade que nos avalia: um olhar pessoal (interior) ou um olhar social (exterior). Acabamos por nos tornar seres fragmentados, indefinidos pela pressão exercida através da educação, da política, da cultura e dos  costumes. É inevitável a criação de um quadro mental que englobe as expectativas que julgamos ter de superar, implantadas por nós ou por outros. De forma a alcançarmos a adaptação social que instintivamente ambicionamos, acabamos por nos pintar à imagem do indivíduo comum, ou, como me atrevo a designar: o sujeito padrão – aquele que reúne as qualidades e os traços que lhe confere atratividade,  que proporciona uma boa incorporação no mapa social, que impede a distanciação e diferenciação do coletivo. Estas competências acabam por resultar numa dissolução na nossa individualidade em prol da conquista de um “eu” coletivo, inserido num corpo geral indiviso.Porque procuramos esta dissolução? Porque não buscamos alcançar a distinção, a criação de uma assinatura particular, o desenho de um traço próprio? A resposta encontra-se, precisamente, na avaliação externa que tememos. Como constatamos, a novidade raramente é aceite de braços abertos nas tradições.
Há pouco tempo estava a ver a série Genius  com um soberbo Geoffrey Rush, como Einstein  onde é-nos mostrado uma possível biografia deste ser tão inteligente e tão inovador.Aí podemos constatar o quanto este homem foi incompreendido e a sua genialidade alvo de chacota e de descrédito pelos avanços científicos então demonstrados por ele. O mesmo se passa quando vi o filme O Jovem Karl Marx do realizador Raoul Peck com August Diehl e Stefan Konarcke. Tanto um como o outro (só para citar dois exemplos, havendo muitos mais)   foram indivíduos ousados e modernos para a época, foram, quase sempre, encarados como loucos, as suas ideias, por contrastarem com o pensamento do cidadão comum (cidadão padrão mencionado anteriormente, cumpridor das normas e paradigmas vigentes), quase  perderam credibilidade e tal só não aconteceu porque estes génios se agarraram a elas com toda a força das suas convicções. As pessoas tendem a assustar-se com o espelho que as consciencializa da falta da sua marca individual, que os alerta para o próprio desaparecimento, que acorda o seu “eu” interior à muito adormecido.   Incidindo no percurso do humano como ser biológico, desde o nascimento que este se encontra, na sua fase mais frágil e precoce, dependente de uma entidade que se define como superior por se apresentar mais capaz (física e psicologicamente), constituindo-se como fonte da nossa sobrevivência. Ao longo do nosso crescimento e em todo o desenvolvimento educacional, é feita esta segregação, é instituída a nossa primeira relação interpessoal complementar, sabendo que será a primeira de muitas. É-nos transmitida a arte da obediência que nos é vendida como a única manifestação de respeito para com entidades superiores. O ato de obedecer constitui-se assim como o principal vínculo em relações não simétricas, quer sejam relações familiares, acadêmicas ou profissionais. É em locais de ensino, em ambientes profissionais ou em espaços constitucionais do mundo adulto que se instaura a ideia de autoridade: qualidade do que é inquestionável, inquebrável e incontestável aos nossos olhos, tornando-nos cegos obedientes, esquecendo ou ignorando os valores e crenças morais defendidas. Somos assim, influenciados a agir de determinado modo, a comportarmo-nos de forma a atingir o cumprimento de ordens que julgamos ter a obrigação e/ou o dever de as concretizar. Testemunhamos nesta sequência de desenvolvimento social o detrimento do pensamento crítico, a vulnerabilidade ética e moral do ser humano e a perigosidade das ações por ele realizadas em consequência de uma obediência total e imediata.  O desejo da integração na sociedade e na cultura, a valorização e o medo incidente na opinião de outrem e a hierarquia estabelecida nas relações interpessoais, representa uma trindade que dá lugar ao conformismo. Conformamo-nos perante a educação que recebemos sem a questionar, perante o retrato social que pintam para nós e por nós. Conformamo-nos assumindo esse retrato como nosso, conformamo-nos rejeitando a mudança, tornando-nos agentes passivos comandados pelo medo. Conformamo-nos alimentando-nos do conformismo dos cidadãos comuns. Conformamo-nos com a vida morta e pobre que levamos, com o largar do “ eu” e o abraçar do “eles”. 
Conformamo-nos fingindo não nos conformar. Conformamo-nos dissociando aquilo que podíamos ser, mergulhando naquilo que esperam que sejamos. Vivemos numa sociedade a preto e branco, monótona, à imagem de um código binário. Cabe-nos a nós: aos loucos, aos anormais e aos marginalizados, pintar um universo aos nossos olhos e viver traçando a nossa identidade e aceitando a de outros. É da nossa responsabilidade convidar a diferença, criá-la e reinventá-la, chamar por experiências particulares vividas por um “eu” sólido mas mutável que acompanha a novidade constante de um mundo múltiplo.

domingo, maio 21, 2017

Prequelas...e mais Prequelas...

De facto eu devia ter emenda depois de ter visto Prometheus e aqui ter há um ano arrasado o filme. Contudo, quando vi  a sua sequência de seu nome Alien-Covenent, dei conta do quanto tinha sido injusta para com Prometheus. Este último filme de Ridley Scott é tão lixo, mas tão lixo (cósmico, espacial, alienígena...o que quisermos chamar...) que o anterior acaba quase por ser uma obra de arte.
Tirando os primeiros 10 minutos do filme, onde se dá um diálogo muito interessante entre o andróide David (M.Fassebender) e o seu criador  (Guy Pearce), tudo o resto é puro lixo do mais baixo que se pode imaginar, lixo esse muito bem embrulhado em tiradas grandiosas, com  um elenco de tripulantes com as ideias mais estúpidas que uma pessoa pode imaginar e no fim dei por mim a perguntar: então... e era essa gente tão desprovida de imaginação,inteligência, astúcia, bom senso... que se preparava para colonizar um planeta? Lol!
Pois...esse Alien-Covenant  é mais um prego no caixão desta sequela,(prequela neste caso) cujo filão/ideia máxima se esgotou  a meu ver precisamente no primeiro filme, Alien-O 8ºPassageiro. Todos os outros que se seguiram foram apenas filões para se ganhar dinheiro e mais nada. Porquê que insistem em fazer continuações de obras de arte? Why? why???? 
Quando Ridley Scott resolveu fazer esta prequela que mostra os eventos antes da chegada da nave ao planeta infernal, onde ovos gigantes com coisas nojentas dentro deles e que  aguardam para saltar para a cara dos infelizes que têm a ideia de olhar para dentro deles, meteu-se a meu ver por atalhos tão envios e tão desprovidos de inteligência que quase se torna risível,como é o caso em apreço.
Li que estão na calha mais dois filmes! Não imagino como se pode espremer mais esse filão, só se for para enriquecer Michael Fassebender, que se meteu aqui e e parece que veio para ficar a tal ponto que neste Alien-Covenant  já não apenas um Fassebender mais sim dois, o que torna tudo ainda mais desconsolador!O twist final é tão idiota, mas tão idiota que nem a grandiosa música de orquestra salva o filme da mais plena mediocridade.Enfim...quando Hollywood está falha de ideias e de bons argumentos cinematográficos, vomita sucessivas sequelas, prequelas e outras idiotices do género, ao qual até nem falta uma heroína a imitar Simone Weaver, mas bem menos inteligente que aquela, e um comandante de nave do mais idiota que me foi dado a ver em cinema.
 Uma desilusão completa!

domingo, maio 14, 2017

Mais UM!

E eis o meu BENFICA TETRA CAMPEÃO!
Que alegria!
Viva o GLORIOSO!


quarta-feira, abril 19, 2017

Negação

Apesar da critica ter malhado fort e e feio neste Negação, filme do inglês Mick Jackson, eu gostei muito do mesmo. Considerei-o muito bem feito, com interpretações muito bem conseguidas de Rachel Weisz, Tom Wilkinson (gosto imenso deste ator) e de Timothy Spall, que há uns tempos nos brindou com uma interpretação genial do pintor Turner. 
Passado em ambiente de um tribunal londrino onde historiadora norte americana Deborah E.Lipstadt, especialista no Holocausto vê-se compelida  a ter de enfrentar através de uma barreira de geniais advogados, David Irving, um negacionista do Holocausto, que afirma o mesmo ser uma farsa inventada pelos próprios para disso tirar dividendos e que acusa a historiadora de o ter difamado num livro publicado pela mesma.
O que acontece aqui, é que ao contrário do sistema norte americano, na Gra-Bretanha é o réu, neste caso  Deborah Lipstadt quem tem de provar a sua inocência e a falsidade das acusações de Irving e não o contrário. Assim esta historiadora vê-se envolvida no meio de uma disputa legal que se prolonga por meses, onde a tese dos seus advogados vai ser o de destruir as bases negacionistas de Irving, provando a veracidade de uma das manchas mais negras da história da humanidade.
Considero que o filme não tem pontos mortos, está muito bem construído, tem como disse acima boas interpretações dos actores em causa coadjuvados compor outros que dão o litro conseguindo assim um filme que se vê muito bem. O filme tem por base o próprio livro desta historiadora norte americana e judia  intitulado de History on Trial: My day in Court With Holocaust Denier.
Um bom filme que recomendo veementemente, quanto mais não seja para podermos ver o quão fina é a porta que separa aquilo que é verdade daquilo que a história pode apagar sem deixar qualquer testemunho às  gerações vindouras. Um filme que dá que pensar.

domingo, abril 02, 2017

A Vigilante do Amanhã

No que respeita a filme de ficção científica (que eu adoro como já o disse no post anterior) quando se mete japoneses, filmes baseados nos  mangás, imagens futuristas,bons actores como é o caso da Juliete Binoche, e já agora a Scarlett Johansson a dar forte e feio nos maus da fita, ponho-me no cinema em menos de nada. E foi o que fiz com este Ghost in The Shell: A Vigilante do Amanhã.
Adorei o filme, adorei a fotografia, a história, os actores, os efeitos especiais que nunca superam a narrativa (coisa rara hoje em dia), assim como aquela cidade do futuro do ano 2029 em que a publicidade das cidades  é feita em três dimensões(caminharemos para lá?), as ruas sempre apinhadas de gente (lembram-se do Blade Runner?) constante chuva a cair e onde já não distinguimos quem é gente e quem é robot, ou uma mistura de ambos.
Achei este Ghost in Shell um grande filme e que superou tudo o que eu estava a espera deste realizador,  Rupert Sanders, o mesmo de A Branca de Neve e o Caçador, mas que aqui no filme esta semana estrado sob bem alto a fasquia em termos cinematográficos. O filme começou por ser de S.Spilberg, mas que por motivos diversos, foi adiando o projecto ate o entregar a Sanders que o vai desenvolver com a ajuda de outros estúdios cinematográficos.
Para além da presença surpreendente nesta andanças de J.Binoche, que numa primeira instância começou por recusar por não se sentir confortável neste tipo de filmes,acabando por aceitar  papel (magnifico como sempre)  pela insistência do realizador, o mesmo vem também envolto em controvérsia devido à escolha da actriz principal, uma vez que na mangá original (banda desenhada japonesa) a mesma é interpretado por uma japonesa.
Eu acho que a mesma não tem razão de ser. Scarlett Johansson vai muito bem e penso que isso de ser uma japonesa ou uma americana não tira mérito ao filme. Vivemos num mundo globalizado em que essas coisas não podem ser consideradas desta forma, até porque se formos a ver poucos são os actores ocidentais que por lá andam, posto que a sua maioria são japoneses, pois o filme é uma parceria entre estúdios, americanos/japoneses e franceses.

Vida Inteligente

Eu de facto não entendo o porquê de certos filmes começarem com premissas tão boas e que depois ao longo do filme vão sendo esbaratadas, chegando a um fim perfeitamente risível. 
Falo-vos deste Vida Inteligente, estreado em Portugal na semana passada, filme do realizador Daniel Espinosa o mesmo  do assustador A Criança 44, com Tom Hardy  e de Detenção de Risco, este com D.Washington e Ryan Reynolds, o mesmo actor que ele vai buscar para aqui se juntar à equipa de uma estação espacial, uma espécie de laboratório no espaço que recebe uma amostra vinda de Marte e que tem de a estudar, a ver se a mesma contêm  Vida/ Life do título original.
Sempre amei e continuarei a amar filmes de ficção científica e sempre que algum se estreia procuro ir vê-lo. Não sou fã das Guerra das Estrelas nem de Star Trek e afins.
 Esse tipo de ficção cientifica passa-me ao lado. Gosto de outro género de filmes de ficção científica (amei o Primeiro Encontro que abordei aqui em post passado) não sou grande apreciadora de sagas, à excepção da que se seguiu ao 8º Passageiro, se bem que alguns dos filmes após esse foram autênticos flops a meu ver. Esperemos o que se segue ao Prometheus, o muito aguardado Alien:Covenant que deve estrear em breve.  
Contudo, retomemos a este Vida Inteligente. Por lá andam o já citado R. Reynolds, Rebecca Ferguson, (a parceira de Tom Cruise e no último Missão Impossível), Jake Gyllenhaal,(que dispensa apresentações) Ariyon Bakare, Hiroyuki Sanada e Olga Dihovichnaya, esta última como a comandante da nave.
Se logo  nos primeiros momentos a tensão instala-se com a chegada da sonda vinda de Marte e  que trás aquilo que é o propósito daquelas pessoas na nave e a posterior descoberta de vida nas amostras trazidas, essa tensão aos poucos vai-se traduzindo no medo que a tripulação vai aos poucos sentindo ao deparar-se com algo que os ultrapassa e que quer viver a todo o custo, façam eles o que fizerem para a eliminar. Ela supera-os a todos e nada a detém.  Isso é percebido logo no início do seu estudo e até admira que gente tão inteligente que ali está naquela nave, não se tenha disso apercebido e tratassem a amostra como algo em que pudessem vir a interagir normalmente,enfim...
É aqui que entramos no campo da semelhança com outros filmes do género e que Alien é a comparação mais provável. A espaços dá-me ideia que estou perante o 8º Passageiro mas uns bons furos  muito abaixo e ao mesmo tempo que a comparação se vai instalando  o gosto em ver o filme vai-se diluindo e foi precisamente isso que aconteceu comigo.
 Dei por mim a fazer comparações e a pensar que de facto depois de o o 8ºª Passageiro, todos os filmes que querem mexer com formas de vida de índole agressiva e indestrutível esbarrarão sempre na comparação. É injusto dizer isso, mas a criatividade por Hollywood não é muita e penso que todos passaram a  mimetizar-se  uns aos outros. O que Ridley Scott fez foi criar um género que depois todos os outros ou copiam... ou nada criam. 
Os que tentam,  uns sabem fazê-lo, outros não,  e é aqui que reside o pecado deste Life. Copiaram  e deram-se mal. O elenco é bom, todos dão o litro, para conseguirem algo de credível, R. Ferguson e Jake Gyllenhaal estão uns furos acima dos outros, mas...e há sempre um mais.. o filme é a meu ver uma desilusão, sendo que este sentimento é exacerbado naquele fim absolutamente risível. Se o intento do realizador era mostra-nos que há coisas que o ser humano não deve mexer e essas coisas são formas de vida absolutamente desconhecidas então conseguiu os seus propósitos. Contudo, ouvi gente a dar umas belas gargalhadas no final e isso não é bom sinal para um filme com as pretensões deste Life.

A Bela e o Monstro

Adorei esta A Bela e o Monstro em versão "carne e osso" se bem que as personagens mais divertidas são precisamente o relógio, o candelabro,  o bule e o seu filhote a chávena, o roupeiro sempre  adormecido, o piano, enfim... todos aqueles seres maravilhosos que enchem o castelo assombrado.
Bill Condon o realizador já nos tinha dado o imperdível Chicago e o Dream Girl e por isso está muito à vontade nos musicais. Os atores como é o caso da Emma Watson e do Kevin Kline , como seu pai estão absolutamente divinais, passado pelo "monstro" que eu não sei como é que aquilo é feito, mas está de facto uma coisa do outro mundo. 
Ainda por cima o filme é divertidíssimo, tem piadas muito bem feitas, tem um ator fantástico e super cómico que é o Josh Gad como o Le Fou, tem o Luke Evans como Gaston, um narcisista do mais abjecto que possamos imaginar, tem o Ewan McGregor como "candelabro" que está maravilhoso, tem o ator Ian McKellen como um medroso relógio muito cómico, tem o Stanley Tucci como um piano sem muitas teclas, e tem a Emma Thompson que como bule é só a coisa mais amorosa que podemos ver. Fui ver a versão original e achei tudo bom, maravilhoso, uma versão inesquecível de um clássico intemporal. Ah... é verdade, tem o belo Dan Stevens como o príncipe. 
Se querem duas horas bem passadas é só ir ver este A Bela e o Monstro.

domingo, março 26, 2017

O Meu Eu

Há pouco tempo estava a ver noite adentro (insónias) um filme que já apanhei a meio e que não quis voltar para trás para ver desde o inicio porque estava  chateada por não conseguir dormir que quedei-me a vê-lo a partir do ponto em que o mesmo ia.
Lentamente fui-me deixando absorver pelo mesmo, porque o que ali estava era o tema das viagens no tempo e em que a páginas tantas o personagem principal , dava por si a retornar ao seu passado, para emendar o que tinha feito no futuro, num processo tão repetidamente esquizofrénico, que a sua identidade passado, presente e futuro, ia-se diluindo sem que o mesmo já soubesse identificar o seu Eu, procurando por isso encontrar através das suas  memórias algo a que se pudesse agarrar, mas duvidando continuamente das mesmas, num looping eternamente repetitivo. 
No dia seguinte enquanto ia para o trabalho comecei a pensar naquilo a que chamamos Eu e se o mesmo é apenas e só uma construção linguística ou vai mais além disso.
De facto, penso que este Eu consiste na opinião que formamos acerca de nós mesmos, que é, em grande medida, definida pela educação, e pela sociedade onde nos inserimos.
 Criamos, sobre o Eu natural e inconsciente, um Eu discursivo, que nasce da confrontação com o que conhecemos de nós próprios.
Conhecemo-nos através de memórias e de conceitos anteriormente imbuídos na nossa mente,e é através dela que  damos uma resposta, seja emocional, intelectual, etc., que contribuirá, postumamente, para outras análises. 
Construímos, pouco a pouco, uma individualidade linguística, e quanto maior for o grau de imparcialidade de que formos capazes, tanto mais independente se torna este novo Eu, a ponto de pormos em causa, eventualmente, a responsabilidade pelos nossos próprios actos, tal como acontecia no filme, visto esses atos poderem ser anulados numa viagem ao passado.
Com efeito, as experiências passam a valer pelo que revelam de nós mesmos, e, regressando a elas, podemos sentir a cisão entre aquele que olha, e aquele que é olhado. Podemos não nos reconhecer no que fazemos, em geral porque o que fazemos pode estar em desacordo com os ideais que se vão formando, em segredo (ou não), ao longo de toda a educação e interacção com o meio socio-cultural. 
Nasce, aqui, o esforço supremo do homem, definido por Nietzsche como a “vontade de vontade”.Assim o meu Eu, acaba por ser aquilo que eu penso que sou, mas formatada por aquilo que os outros querem que eu seja, num processo contínuo de vivência social. 

domingo, fevereiro 19, 2017

A Grande Muralha

Estreou em Portugal o filme  A Grande Muralha, obra  do excelente e visionário  realizador chinês Zhang Yimou o mesmo de Herói,O Segredo dos Punhais Voadores,A Maldição da Flor Dourada, Regresso a Casa, este último um filme que tenho guardado num cantinho do meu coração,  assim como outros filmes que vêm do oriente nomeadamente o Disponível Para  Amar de Won- Kar -wai.
Baseado numa lenda oriental, o filme vale pelos incríveis e sublimes efeitos especiais, pela prestação da lindíssima Jing Tian, por Matt Damon que nunca faz feio, por Pedro Pascal (lembremo-nos dele em A Guerra dos Tronos)e pelo pequeno papel de Willem Dafoe e pelo sempre seguro Lu Han.
Não saímos do cinema defraudados,(muito pelo contrario) pois de facto o filme é de uma grandeza extraordinária nas suas premissas, assim como nesta estreita e espero que frutífera colaboração entres o cinema chinês e norte americano.
Um bom filme, com cenas de nos tirar o fôlego, e com prestações muito bem conseguidas de todos os envolvidos, passado pela grandiosidade de visualizarmos uma das maravilhas do mundo que é a Grande Muralha. Só por isso vale a pena ver esta grandiosa obra cinematográfica!

terça-feira, fevereiro 14, 2017

O Silêncio

Fui há tempos ver este Silêncio do grande Martin Scorcese e ver o porquê do mesmo ter sido tão  esquecido nas nomeações para os Oscares quando este realizador já deu tanto e tão bons contributos para a industria cinematográfica. Evidentemente que um filme não vale pelos prémios que recebe e a história do cinema está cheio de exemplos de obras intemporais  que nunca receberam qualquer prémio e de outras bastamente premiadas sem que alguém se lembra delas hoje em dia e para dar um exemplo lembremo-nos do "Shakespeare in Love", só para nomear uma.
Sem ter ainda visto ainda essa obra que pelo que vejo e leio irá receber um número bastante significativo de estatuetas, (estou a falar-vos de La La Land) gostei imenso deste Silêncio de Scorcese, sem contudo vir de lá a considerar ter visto o filme da minha vida e duvido que alguém assim pense, depois de passar 3 horas a ver o martírio de cristãos pelas terras do sol nascente...e se essas almas eram de facto vilmente  martirizadas.
No dia que fui ver um casal ao meu lado saiu, não aguentando o que estava a ver e parece-me que depois do intervalo ( sim...fui a uma sala que faz intervalo, coisa que achei uma estupidez dado o tipo de filme que este é)  a sala estava bem mais vazia.
O filme é duro, violento, pesado questiona-nos continuamente sobre os caminhos da fé, mostra-nos diálogos incríveis como é o caso das conversas absolutamente sublimes entre um dos padres Jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e o inquisidor mor, o fantástico (Yoshi Oida), passado pelo diálogo quase final  entre o  padre Ferreira, Liam Neeson e Sebastião Rodrigues. Penso que o filme vale por esses diálogos que são a marca inconfundível de M.Scorcese.
Há um personagem algo esquecido, mas que é a meu ver uma peça fundamental é a de Francisco Garrupe, papel desempenhado de uma forma magnifica por Adam Drive. Ele é de facto um dos grandes mártires deste filme e é pena ter sido colocado o enfoque quase todo ou mesmo todo, sobre A.Garfield, um personagem que deixa muitas interrogações no ar e a meu ver nem sempre muito satisfatórias.
 Liam Neeson, como sempre muito bem, e é pena este actor estar a especializar-se em filme de acção sem qualquer sentido, quando ele é tão bom em papéis deste cariz.
A fotografia deste Silêncio é uma coisa sublime e não é sem razão que é a única categoria para o qual está indigitada para os Oscares.
Sem me deslumbra, gostei muito do filme, é uma obra inesquecível e atrevo-me a dizer que daqui a  muitos anos continuar-se-á a lembrar da mesma coisa que duvido que se irá passar com La La Land.

domingo, janeiro 22, 2017

Manchester perto do Mar

O filme vem carregado de tudo quanto seja elogios da crítica e não só. Parece que toda a gente que o vai ver acha uma obra fantástica, apesar de muito triste, sem redenção, profunda, com actuações soberbas de Casey Affleck ( o irmão mais novo de Ben Affleck)...patati...patata...
Ontem fui vê-lo...e não adormeci porque manifestamente tinha medo de começar a ressonar(oppss eu ressono por causa de um problema de bronquite asmática...desculpas...desculpas...) e por respeito à  amiga que ia comigo e que adorou o filme desde o início ao fim!Pois...a diversidade das emoções humanas no seu melhor.
Não gostei desse Manchester By the Sea, o fime de Kenneth Lonergan ( o guionista de Uma Questão de Nervos,Gangs de Nova Iorque e Maldição, este último retirado de uma obra de S.King) e que depois  envereda pela realização com o "Conta Comigo" e "Margaret".
A história aqui narrada em Manchester by The Sea, não me disse nada posto que já vimos aquilo em centenas de outras histórias de tragédias familiares e em que o "culpado" leva a sua vida carregando uma cruz para toda a eternidade sem redenção possível.
A única coisa que ali se aproveita é mesmo as prestações de C.Affleck, Kyle Chandler (que nunca faz feio e que é pena ser sempre um actor de suporte) e de um miúdo de seu nome Lucas Hedges que de facto está fabuloso.
Michelle Williams sempre o mesmo pãozinho sem sal, aparece em três ou quatro cenas e até a cena quase final da conversa com o seu ex  atormentado marido não me convenceu nada.
 Passado à beira de uma cidadezinha costeira americana  de seu nome Manchester o que ali vemos é gente em estado de negação perante a tragédia e que um homem (C.Affleck bem gordinho e bem soturno) que só consegue enfrentar os seus demónios andando aos murros a todos os desgraçados que lhe apareçam pela frente e que de tão parco em palavras acaba por ser a meu ver um chato do caraças.
E é isto.
Este MBS está super nomeado para tudo quanto é prémio, talvez vá fazer um figuraço nos Oscares para grande consternação minha, pois esse relevo todo em questão de prémios deveria ser  dirigido ao surpreendente  Silêncio de M..Scorcese, esse sim um grande filme.
Depois escreverei aqui sobre esta surpresa cinematográfica que estreou esta semana em Portugal.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Animais muito Nocturnos

Para começar bem o ano de 2017 fui ver (está quase a sair de cartaz) o último filme do realizador Tom Ford, (após Um Homem  Singular) o Animais Nocturnos, baseado na obra  Tony and Susan de Austin Wright.
Vi que a critica arrasou o filme  e quando ontem o fui ver ia com alguma relutância.
Contudo, achei o mesmo um filmaço,(não percebo a má vontade de alguns críticos acerca deste filme) pois o mesmo está muito bem realizado, com um argumento muito bem urdido em o que ali vemos é uma uma história dentro de outra história, (sem nunca nos perdermos), com uma interpretação muitíssimo bem conseguida de Amy Adams (actriz  que eu amo de coração) de Jake Gyllenhaal (aí o que eu gosto deste actor) de Michael Shannon (inperdível no papel de um polícia a lutar contra um cancro) assim como  de Aaron Taylor-Johnson, um psicopata de nos fazer arrepiar a coluna. Laura Linney e Michael Sheen aparecem num pequenino papel , mas ambos são inesquecíveis.
Não posso deixar de relevar o guarda roupa que é fabuloso, não fosse Tom Ford um excelente estilista e uma fotografia absolutamente incrível.
O filme esteve no ano passado em competição pelo Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza onde recebeu o grande prémio do Júri. 
É um daqueles filmes onde vemos que de facto que a vingança quando quer ser servida deve ser como um prato extremamente frio.
Um filme imperdível a todos os títulos.