domingo, fevereiro 19, 2017

A Grande Muralha

Estreou em Portugal o filme  A Grande Muralha, obra  do excelente e visionário  realizador chinês Zhang Yimou o mesmo de Herói,O Segredo dos Punhais Voadores,A Maldição da Flor Dourada, Regresso a Casa, este último um filme que tenho guardado num cantinho do meu coração,  assim como outros filmes que vêm do oriente nomeadamente o Disponível Para  Amar de Won- Kar -wai.
Baseado numa lenda oriental, o filme vale pelos incríveis e sublimes efeitos especiais, pela prestação da lindíssima Jing Tian, por Matt Damon que nunca faz feio, por Pedro Pascal (lembremo-nos dele em A Guerra dos Tronos)e pelo pequeno papel de Willem Dafoe e pelo sempre seguro Lu Han.
Não saímos do cinema defraudados,(muito pelo contrario) pois de facto o filme é de uma grandeza extraordinária nas suas premissas, assim como nesta estreita e espero que frutífera colaboração entres o cinema chinês e norte americano.
Um bom filme, com cenas de nos tirar o fôlego, e com prestações muito bem conseguidas de todos os envolvidos, passado pela grandiosidade de visualizarmos uma das maravilhas do mundo que é a Grande Muralha. Só por isso vale a pena ver esta grandiosa obra cinematográfica!

terça-feira, fevereiro 14, 2017

O Silêncio

Fui há tempos ver este Silêncio do grande Martin Scorcese e ver o porquê do mesmo ter sido tão  esquecido nas nomeações para os Oscares quando este realizador já deu tanto e tão bons contributos para a industria cinematográfica. Evidentemente que um filme não vale pelos prémios que recebe e a história do cinema está cheio de exemplos de obras intemporais  que nunca receberam qualquer prémio e de outras bastamente premiadas sem que alguém se lembra delas hoje em dia e para dar um exemplo lembremo-nos do "Shakespeare in Love", só para nomear uma.
Sem ter ainda visto ainda essa obra que pelo que vejo e leio irá receber um número bastante significativo de estatuetas, (estou a falar-vos de La La Land) gostei imenso deste Silêncio de Scorcese, sem contudo vir de lá a considerar ter visto o filme da minha vida e duvido que alguém assim pense, depois de passar 3 horas a ver o martírio de cristãos pelas terras do sol nascente...e se essas almas eram de facto vilmente  martirizadas.
No dia que fui ver um casal ao meu lado saiu, não aguentando o que estava a ver e parece-me que depois do intervalo ( sim...fui a uma sala que faz intervalo, coisa que achei uma estupidez dado o tipo de filme que este é)  a sala estava bem mais vazia.
O filme é duro, violento, pesado questiona-nos continuamente sobre os caminhos da fé, mostra-nos diálogos incríveis como é o caso das conversas absolutamente sublimes entre um dos padres Jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e o inquisidor mor, o fantástico (Yoshi Oida), passado pelo diálogo quase final  entre o  padre Ferreira, Liam Neeson e Sebastião Rodrigues. Penso que o filme vale por esses diálogos que são a marca inconfundível de M.Scorcese.
Há um personagem algo esquecido, mas que é a meu ver uma peça fundamental é a de Francisco Garrupe, papel desempenhado de uma forma magnifica por Adam Drive. Ele é de facto um dos grandes mártires deste filme e é pena ter sido colocado o enfoque quase todo ou mesmo todo, sobre A.Garfield, um personagem que deixa muitas interrogações no ar e a meu ver nem sempre muito satisfatórias.
 Liam Neeson, como sempre muito bem, e é pena este actor estar a especializar-se em filme de acção sem qualquer sentido, quando ele é tão bom em papéis deste cariz.
A fotografia deste Silêncio é uma coisa sublime e não é sem razão que é a única categoria para o qual está indigitada para os Oscares.
Sem me deslumbra, gostei muito do filme, é uma obra inesquecível e atrevo-me a dizer que daqui a  muitos anos continuar-se-á a lembrar da mesma coisa que duvido que se irá passar com La La Land.

domingo, janeiro 22, 2017

Manchester perto do Mar

O filme vem carregado de tudo quanto seja elogios da crítica e não só. Parece que toda a gente que o vai ver acha uma obra fantástica, apesar de muito triste, sem redenção, profunda, com actuações soberbas de Casey Affleck ( o irmão mais novo de Ben Affleck)...patati...patata...
Ontem fui vê-lo...e não adormeci porque manifestamente tinha medo de começar a ressonar(oppss eu ressono por causa de um problema de bronquite asmática...desculpas...desculpas...) e por respeito à  amiga que ia comigo e que adorou o filme desde o início ao fim!Pois...a diversidade das emoções humanas no seu melhor.
Não gostei desse Manchester By the Sea, o fime de Kenneth Lonergan ( o guionista de Uma Questão de Nervos,Gangs de Nova Iorque e Maldição, este último retirado de uma obra de S.King) e que depois  envereda pela realização com o "Conta Comigo" e "Margaret".
A história aqui narrada em Manchester by The Sea, não me disse nada posto que já vimos aquilo em centenas de outras histórias de tragédias familiares e em que o "culpado" leva a sua vida carregando uma cruz para toda a eternidade sem redenção possível.
A única coisa que ali se aproveita é mesmo as prestações de C.Affleck, Kyle Chandler (que nunca faz feio e que é pena ser sempre um actor de suporte) e de um miúdo de seu nome Lucas Hedges que de facto está fabuloso.
Michelle Williams sempre o mesmo pãozinho sem sal, aparece em três ou quatro cenas e até a cena quase final da conversa com o seu ex  atormentado marido não me convenceu nada.
 Passado à beira de uma cidadezinha costeira americana  de seu nome Manchester o que ali vemos é gente em estado de negação perante a tragédia e que um homem (C.Affleck bem gordinho e bem soturno) que só consegue enfrentar os seus demónios andando aos murros a todos os desgraçados que lhe apareçam pela frente e que de tão parco em palavras acaba por ser a meu ver um chato do caraças.
E é isto.
Este MBS está super nomeado para tudo quanto é prémio, talvez vá fazer um figuraço nos Oscares para grande consternação minha, pois esse relevo todo em questão de prémios deveria ser  dirigido ao surpreendente  Silêncio de M..Scorcese, esse sim um grande filme.
Depois escreverei aqui sobre esta surpresa cinematográfica que estreou esta semana em Portugal.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Animais muito Nocturnos

Para começar bem o ano de 2017 fui ver (está quase a sair de cartaz) o último filme do realizador Tom Ford, (após Um Homem  Singular) o Animais Nocturnos, baseado na obra  Tony and Susan de Austin Wright.
Vi que a critica arrasou o filme  e quando ontem o fui ver ia com alguma relutância.
Contudo, achei o mesmo um filmaço,(não percebo a má vontade de alguns críticos acerca deste filme) pois o mesmo está muito bem realizado, com um argumento muito bem urdido em o que ali vemos é uma uma história dentro de outra história, (sem nunca nos perdermos), com uma interpretação muitíssimo bem conseguida de Amy Adams (actriz  que eu amo de coração) de Jake Gyllenhaal (aí o que eu gosto deste actor) de Michael Shannon (inperdível no papel de um polícia a lutar contra um cancro) assim como  de Aaron Taylor-Johnson, um psicopata de nos fazer arrepiar a coluna. Laura Linney e Michael Sheen aparecem num pequenino papel , mas ambos são inesquecíveis.
Não posso deixar de relevar o guarda roupa que é fabuloso, não fosse Tom Ford um excelente estilista e uma fotografia absolutamente incrível.
O filme esteve no ano passado em competição pelo Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza onde recebeu o grande prémio do Júri. 
É um daqueles filmes onde vemos que de facto que a vingança quando quer ser servida deve ser como um prato extremamente frio.
Um filme imperdível a todos os títulos.

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Aí vem 2017!


Que venha  2017 e traga muita Saúde, alguma Paz, Felicidade, Dinheiro....a todos os Homens e Mulheres de Boa Vontade!




segunda-feira, dezembro 26, 2016

Para sempre Jorge Michael

A pessoa acorda e ouve a noticia que o cantor britânico Jorge Michael morreu aos 53 anos. Fiquei mesmo triste, pois para além de gostar imenso das canções dele ao ponto de ter vários Cds  também gostava do desassombro com que ele vivia a vida. Penso que este homem nunca deixou de fazer o que quis fazer independentemente de o criticarem. Viveu bem, fez o lhe apeteceu, cantou o que quis cantar, era um óptimo instrumentista e é pena que não o tivessem levado mais à sério pois ele era mesmo muito bom no que fazia. Penso que talvez porque a sua vida privada sempre foi pontuada por momentos algo tumultuosos isso tivesse acabado pro interferir naquilo que ele sabia fazer bem:cantar e tocar. Quem não se lembra do tema "Last Christmas"  quando ele fazia parte dos 'Wham' por esta altura do ano?Natal sem ouvirmos esse tema...é sempre um Natal bem mais pobrezinho em termos musicais!
Quem não se lembra da balada"Careless Whisper? Só mesmo um desalmado é que não se lembra deste ícone dos anos oitenta em termos de canções românticas!
Uma perda terrível, como outras que aconteceram neste ano que agora termina. De facto este ano de 2016 foi azíago para o mundo do espectáculo. Já nos levou o D.Bowie, L.Coen, o Prince e agora ainda nos leva o Jorge Micheal? Tem dó! 
Que a tua alma descanse em paz, Jorge Michael.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

BOAS FESTAS

DESEJO A TODOS OS MEUS LEITORES QUE TENHAM UM FELIZ NATAL!
A"Adoração dos Pastores"por Domenico Ghirlandaio

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Dante Gabriel Rosseti-A Infância da Virgem Maria




































Esta tela denominada de "A Infância da Virgem Maria", é a primeira tela realizada por  Dante Gabriel Rosseti (1828-1882) pintor , (que já abordei aqui num post anterior a propósito da sua tela (A Noiva), sendo também a primeira que Rosseti imprimiu as iniciais PRB (Pré-Raphaelite Brotherhood).
Vejamos então a tela em si.
O artista apresenta uma sala, na qual está a Virgem com a sua mãe, Santa Ana, sob a presença de um anjo, figura para qual Rosseti teve como modelo uma criança com um ar um tanto ou quanto ceráfico, e por isso mesmo  muito apropriado para  esse fim.
 A obra está repleta de símbolos que aludem ao Cristianismo, como a folha de palmeira que está no chão, em primeiro plano, ou a açucena, que faz alusão à pureza da Virgem.
Outro dos símbolos é a pomba branca , que aparece enquadrada num círculo dourado, e que por isso faz referência ao Espírito Santo.É interessante observar a luz e a cor que caracterizam esta grande obra:as cores muito vivas são atenuadas pelo excesso de luz branca que entra pela janela.Por sua vez a Virgem a qual Rossetti teve como modelo a sua irmã Christina, aparece sentada à direita da composição, representada com longos cabelos ruivos, enquanto parece estar a bordar algo com a ajuda da sua mãe, Santa Ana.Esta última teve como modelo a própria mãe do artista, Frances.
O homem que se vê de fora e que parece estar a podar uma árvore, representa São Joaquim, pai da Virgem Maria. Consta que o modelo de Rossetti para a representação deste homem, foi o próprio homem que realizava pequenos arranjos na sua casa,assim como o anjo ser um garoto filho de um seu amigo.
Toda a tela está impregnada de vermelho e dourado, conferindo-lhe assim  alguma riqueza em contraste com a modéstia dos personagens em questão.
Esta deliciosa obra intitulada de "A Infância da Virgem Maria", realizada por volta de 1848/49 é óleo sobre tela e pode ser apreciada no Tate Galleries em Londres.

sábado, dezembro 10, 2016

Um Filme Excepcional

Este Eu, Daniel Blake do realizador britânico Ken Loach, com Dave Johns no principal papel coadjuvado pela soberba Hayley Squires  é seguramente um dos melhores filmes estreado neste fim de ano de 2016 e não é por isso de se estranhar ter ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes neste ano de 2016. Ver este filme é entrar pelo Processo de Kafka a dentro, e verificarmos como a máquina burocrática de um Estado em plena e cruel desumanização pode triturar um individuo que procura tão só que lhe dêem o certificado de incapacidade para o trabalho devido ao um problema sério de coração. Lido assim parece tudo muito comum e mais que visto, mas a câmara de Ken Loach mostra-nos actores em estado e de graça, ajudado pelo fantástico argumento de Paul Laverty habitual  companheiro de route de Loach.
Um filme imperdível a todos os títulos


quarta-feira, dezembro 07, 2016

Juan Bautista Maino-A Adoração dos Pastores

Esta é uma das obras principais de Juan Bautista Maino, que se incluía no retábulo maior do Convento Dominicano de São Pedro, Mártir de Toledo,onde o autor viveu como monge.
A composição está baseada numa sobreposição escalonada de planos, onde são apresentados os diferentes personagens.Deste modo, no plano central encontra-se a Virgem com o Menino, acompanhados por São José, que beija com ternura a mão do Menino, e para o qual um pastor se dirige respeitosamente com oferendas.Atrás de um muro baixo, uma vaca e um burro contemplam a cena.A nova mentalidade da contra reforma ignorada por El Greco, cuja arte era mais inteletual, reflete-se nesta obra, através de personagens com os quais o povo se poderia identificar.São José parece um camponês, os pastores parecem humildes trabalhadores arrancados à realidade, e os anjos situados em planos superiores, poderiam ser crianças comuns que  habitualmente, corriam pelas ruas das povoações. Trata-se de uma obra repleta de personagens e impregnada de um grande realismo. Os contrates luminosos criam grandes zonas de sombra, que se alternam com zonas de luz dourada que ilumina a cena.Essa iluminação é bem visível nos principais protagonistas. A Virgem, o Menino e São José, estão muito iluminados e encontram-se vestidos com roupas de tons coloridos, que relembram obras de artistas italianos com Artemísia Gentileschi.
O pastor do primeiro plano, algo cansado de uma longa viagem, descansa exausto junto à cena principal, com as oferendas que irá dar ao menino representadas através de uma pequena natureza morta.Podemos ainda apreciar aqui nesta tela o excelente trabalho de anatomia, revelando grande influência italiana na obra deste artista espanhol.
Esta tela "A Adoração dos Pastores", que é um óleo sobre tela tem as dimensões de 3.15x1.74cm  foi realizada por volta de 1611/1613.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

O Último Mês do Ano

E cá estamos nós no último mês do ano-Dezembro.

sábado, novembro 26, 2016

Quatro bons filmes em cartaz


Neste momento estão em cartaz quatro filmes que acho imperdíveis.



O primeiro  que aqui sugiro é o Elle do realizador Paul Verhoeven, (Show Girls) com a soberba Isabel Huppert. É um filme a meu ver algo polémico e com uma história que nos deixa meio zonzos e até algo desorientados...no mínimo! 
Um filme para vermos e ficarmos a pensar durante muito tempo.










Outro filme que amei foi Uma História Americana, obra de estreia na realização do actor Ewan McgGregor. Para mim, esta sua primeira incursão na realização está excelentemente bem conseguida, pois não deve ter sido fácil retirar um filme desta obra maior do escritor  Philip Roth, Pastoral Americana.
Contudo, a meu ver este objectivo foi conseguido, pois Ewan McGregor não se perdeu nos meandros do livro (que é bastante pormenorizado nas suas premissas) e consegue dar-nos uma história sobre a perda do sonho americano e as sequelas da guerra do Vietname de uma forma magistral.
 Está de parabéns ele como realizador e como actor principal, está de parabéns Jennifer Connely que é soberba sempre, e por último está de parabéns
Dakota Fanning que aqui nos dá o papel de uma vida.
Gostei muito deste Uma Historia Americana e recomendo o mesmo vivamente.


Amei também este Agnus Dei-As Inocentes  e só é pena o mesmo ter sido atirado para pouquíssimas salas de cinema, passando assim quase despercebido.É pena pois estamos aqui perante um filme excelente.  De facto, Anne Fontaine (Paixões Proibidas) vai filmar os horrores da segunda guerra mundial e baseando-se numa história verídica dá-nos a conhecer a história absolutamente alucinante de um grupo de religiosas brutalmente violadas por soldados alemães e posteriormente por soldados russos aquando da invasão da Polónia tanto por uns como por outros.
O que aqui vemos são mulheres completamente entregues ao martírio de terem de sobreviver a esse horror e com as marcas deixadas através de gravidezes indesejadas, mas que as que aguentam tudo em nome de uma fé inabalável ajudadas por uma jovem médica da Cruz Vermelha que as tenta auxiliar e que se surpreende com a força interior dessas jovens mulheres. Mais uma vez Anne Fontaine a deixar-nos uma história de mulheres, com uma fotografia de antologia e interpretações de actrizes polacas em estado de graça.
Um filme imperdível a todos os títulos!






O último filme que aqui abordo é o Arrival- O Primeiro Encontro do realizador Dennis Vuilleneuve e com uma sobeba Amy Adams,Jeremy Renner e Forrester Whiteker que como sempre nunca faz feio.
Todos os anos há um sempre um grande filme de ficção científica, (dito não comercial...do género  Guerra das Estrelas e seus sucedâneos...)
O  do ano passado o Interestelar foi um autêntico flop.
Eu gosto muito deste género de filme  e ano após ano me desiludo com o que vou ver. Finalmente neste ano surpreendi-me e bem com este Arrival-O Primeiro Encontro .
 O filme é muito bom, com um inteligente guião e está  excelentemente realizado. É também um filme que nos surpreende constantemente e isso é uma proeza que nem todos conseguem. Dennis Villeneuve como sempre está seguríssimo na realização e a escolha dos actores não poderia ter sido mais acertada. Se queremos saber um pouco mais sobre as dificuldades  de comunicação existentes no mundo, nada como ver este O Primeiro Encontro., que desconfio que vai dar algumas cartas aquando da nomeação para os Oscares

segunda-feira, novembro 14, 2016

Agente do Futuro

O retorno em 2017 da actriz  Scarlett Johansson num trilher de fição científica.

terça-feira, novembro 08, 2016

Francisco de Goya- A Vindima ou O Outono

Agora que estamos em pleno Outono, época de vindimas nada melhor que abordar aqui uma tela realizada pelo pintor espanhol Francisco de Goya (1746/1828) intitulada de A Vindima ou O Outono. De facto, este cartão foi pintado  pelo mesmo quando trabalhava na Real Fábrica de Tapetes de Santa Bárbara. Fazia parte de uma série de quatro tapeçarias dedicadas ás estações do ano, referindo esta ao Outono. Este tipo de tapeçarias de elevado valor monetário de uma forma em geral acabava só por poder ser adquirido por pessoas de elevadas posses que com elas adornavam as suas salas de jantar. No caso em apreço esta tapeçaria estava destinada à sala de jantar do Palácio do Prado em Madrid, actualmente museu com o mesmo nome. 
O que aqui vemos nada mais é que uma cena puramente académica, uma vez que agrupa figuras do primeiro plano num triângulo, uma formação muito neoclássica. A cesta que a rapariga em pé tem à cabeça está pintada como se de uma natureza morta se  tratasse, pois nada nessa cesta tem um tom natural, assim como pouco natural é  a posição do rapaz que cruza a perna esquerda sobre a direita como se estivesse num salão de um qualquer palácio, e com a mão direita segura um cacho de uvas acabado de ser colhido. A dama de negro  segue-lhe as pisadas e o modo que segura o mesmo  cacho de uvas é de um artificialismo quase teatral, assim como artificial é  a posição do menino que de costas para os espectador tenta alcançar esse mesmo cacho de uvas.Por detrás dessa triângulo de primeiro plano vemos dois homens trabalhando no campo e a paisagem circundante é de um plano de cores vivas. No chão vemos folhas de videira, numa alusão ao Outono aqui retratado.
Apesar do artificialismo de toda esta cena, não deixa de nos surpreender saber que alguém teceu esta tapeçaria, tão cheia de pormenores, cores  e onde os personagens principais estão tão ricamente vestido como é o caso da personagem masculina que com o seu fato amarelo ricamente bordado dá uma nota de alegria a este Outono mês de vindimas.
Esta tela poderá ser vista no Museu do Prado em Madrid.

domingo, outubro 09, 2016

Um Clássico Revisitado

Enquanto não chega a nova e parece-me que última temporada da já mítica série Guerra dos Tronos, era bom que algum canal generalista comprasse os direitos de uma série da HBO (tal como a GDT) que está já a dar muito que falar que é o Westworld. 
Há muitos anos vi e já revi o filme com o mesmo título realizado pelo já falecido Michael Critchon ...sim esse mesmo o escritor de obras memoráveis (pelo menos para mim)  e dos quais foi tirado o roteiro para o também já mítico Parque Jurássico realizado por S. Spilberg. 
Foi uma morte prematura a deste escritor, roteirista, realizador, pois ele ainda teria muito que dar ao mundo da ficção...e que ficção que saía sempre daquela mente brilhante.
Voltando ao filme por si realizado. 
Na altura quando o fui ver, apanhei um susto do caraças quando aqueles dois amigos de repente se apercebem que aquele mundo de ficção onde as pessoas iam para lá dar vazão a todos os seus mais profundos desejos, de repente vira um autêntico matadouro com os robôs de repente a assassinarem todos os humanos que lhes aparecia pela frente.
Esse parque de diversões se não me engano dividia-se em três territórios de diversão.
 Um era o do western, o outro era sobre Roma antiga e havia um terceiro que se passava na idade média.
A estrela  do filme era o ator  Yul Brynner, um cowboy que depois de uma avaria ou coisa que o valha é levado para o laboratório para ser consertado e metem-lhe um novo software. Só que aquilo não corre nada bem e esse e outros andróides que viram uns loucos perseguidores e assassinos das pessoas que com eles interagem. 
Penso que Yul Breyner foi o ator ideal para o papel de robô impiedoso, estava   perfeitíssimo para o papel, pois o facto do mesmo ser totalmente desprovido de qualquer cabelo na cabeça e ter uns olhos  olhos azuis totalmente vazios e  impiedosos, era de nos fazer arrepiar a espinha. 
Por lá andavam também Richard Benjamim, James Brolin, Dick van Paten, entre muitos outros. Amo até hoje esse filme e quando esporadicamente algum canal o passa, ponho-me  a vê-lo como se fosse a primeira vez.
 Com o sucesso do filme (um autêntico clássico dos anos 70), surge agora a série criada por J.J.Abrams,Jonathan Rolan e Lisa Joy, recheada de bons atores como é o caso de Antony Hopkins, Evan Rachel Wood, Thandie Newton entre outros. Se na parada  tem A.Hopkins eu Vejo Logo!
Honra seja feita à HBO, que  ultimamente tem-nos dado muito boas séries ( O Sexo e a Cidade) e acredito que esta fará tanto sucesso como a Guerra dos Tronos .
Que Westworld venha rapidinho.

domingo, setembro 18, 2016

American Hero

Gostei muito, mas mesmo muito deste Sully,  última obra do actor e realizador  Clint Eastwood, com um sempre seguríssimo Tom Hanks no papel principal, coadjuvado por Aaron Eckhart, Laura Linney, Autumn Reeser,Anna Gunn, entre demais actores.
Como tem sido hábito C.Eastwood não vacila e dá-nos a conhecer as agruras por que passou o piloto de avião Chesley "Sully" Sullennberger, mais conhecido por Sully ( o título do filme) para provar perante a comissão de inquérito ao acidente de avião que o mesmo pilotava, a  impossibilidade de conseguir chegar a um dos dois aeroportos sugeridos pela torre de controle, tendo pois que aterrar o avião no Rio Hudson, única forma de conseguir  salvar os passageiros de uma morte certa. 
Com um naipe de bons actores, uma direcção segura e cenas verdadeiramente arrepiantes do que é  estar-se num avião e ouvirmos dizer que nos preparemos para o impacto, este Sully é de facto um grande filme feito por um soberbo realizador.
Um filme de facto, imperdível!

Um Filme Fantástico

Amei do principio ao fim este filme de Matt Ross que para além de ter sido merecidamente ovacionado em pé no Festival de Cannes, acabou por ganhar o prémio de realização na secção "Um Certain Regard".
Falo-vos de Capitão Fantástico com Vigo Mortensen no papel principal, tendo também como actores Frank Langelia,George Mckay, Samantha Isler, Steve Zahn, Annalise Basson, Nicholas Hamilton,Shree, Croks,Katheryn Hahn, entre outros.
Capitão Fantástico traça a escolha de um casal que fugindo da civilização e refugiando-se num paraíso criado por si,  ali têm os filhos (seis) integrando-os nesse ambiente e paulatinamente impreparando-os assim para a civilização com tudo o que esta tem de bom e muito de mau. A ideia que os miúdos ficam dessa mesma civilização e-lhes dada por obras de grandes autores que os mesmos lêem com gosto e que conseguem discuti-las assertivamente.  Assim o que ali vemos, não  são  selvagens iletrados,  muito pelo contrário, são crianças criadas num ambiente feito de escolhas dos seus progenitores,escolhas essas com um cariz marcadamente  político, criando-se assim a utopia ( ou talvez não)  da criação da República de Platão com os seus reis filósofos.
Essas posições vão marcar para sempre de uma forma por vezes dramática as opções de vida que cada um daqueles jovens terá de fazer quando chega a adulto. Isso é sintomático no filho mais velho, um papel soberbo  de George Mckay que conseguindo pela sua inteligência entrar em várias universidades, vê-se compelido a esconder esse facto numa atitude de pura desorientação quanto ao seu futuro e ao medo de desagradar ao adorado pai.
 O facto de a presença da mãe ser-nos dada em flash back deixa-nos até ao fim na dúvida se a mesma teria colapsado dentro da vivência dessa utopia veementemente defendida por Ben o progenitor, num papel completamente à medida desse ator que eu amo de coração que é Vigo Mortensen.
Este Capitão Fantástico é assim, uma lufada de ar fresco no panorama cinematográfico, um filme digno de ser visto pelas ideias ali deixadas e as posições defendidas que acabam por despertar em nós o retorno à mãe natureza. 
Uma obra imperdível.

domingo, setembro 11, 2016

O Stress de Setembro

Ontem assisti numa grande superfície comercial aquilo que se assiste em todos os inícios de ano lectivo. O descabelamento total dos pais a comprar material escolar para os seus filhos.
 De facto, não há começo de ano lectivo que não me  abismo ao ver  centenas de encarregados de educação entregues ao fardo de gastar uma "pipa de massa" e nos mais diversos objectos que a mente humana pode inventar, estando ainda por cima em permanente luta com o pouco  dinheiro que  têm nas suas carteiras.
Vi uma mãe com duas crianças tão destroçada, tão cansada e tão stressada com os gritos, choros  e variadas exigências dos miúdos que não lhe restou senão dar um berro e dizer: "Chega...amanhã venho cá sozinha e vocês ficam com o vosso pai!"
Se multiplicarmos essa cena pelas muito grandes superfícies que abundam por este país aí vemos a dimensão da insanidade que se dá nesta altura em que pais de lista em punho comprar os mais diversos artigos, como lápis, canetas, mochilas, réguas, esquadros, compassos, borrachas, cartolina de todas as cores e feitios, colas ...uma miríade de coisas que os miúdos vão paulatinamente destruindo ao longo do ano, pois só assim se justifica começar tudo de novo em cada inicio de Setembro. 
Se juntarmos a isso a loucura  que é a compra de livros, não admira que este mês da graça do Senhor acaba por ser algo de inesquecível para os pais e encarregados de educação que num ápice vêem fugir-lhes do corpo e da alma qualquer réstia de descanso que tenham tido durante o mês de Agosto. A confusão não é maior porque muita gente já opta pelas compras on line, tendo assim um pouco mais de paz. 
As editoras na ânsia de facturar colocam livros técnicos a preço de caviar e penso que nada durante anos será mudado nesse capítulo pois há interesses muito fortes por detrás de todo este negócio e as grandes superfícies aproveitam esta ocasião para vender e vender bem coisas que muitas vezes me pergunto para quê que servem e se todo esse material não seria melhor ser adquirido ao longo do ano lectivo sem stress e confusões e sobretudo sem se gastar autênticas fortunas quando se chega à linha de caixa.
É o país que temos, é a politica de educação que nos rege, e parece-me que nesse capítulo tudo continuará assim durante muitos anos e Setembro após Setembro as lojas se encheram de encarregados de educação e filhos em busca do sacrossanto material escolar.

quinta-feira, setembro 08, 2016

Sem Olhos no Ecrã

Uma das coisas que irei continuar a batalhar enquanto tiver fôlego é contra a mania absolutamente terrível de que certas/muitas pessoas têm, de se dirigirem a uma bilheteira de cinema comprarem o  respectivo bilhete, balde de pipocas e afins, entrarem porta adentro, sentarem-se na sala, puxarem do seu telemóvel e estarem toda a sessão no facebook, whatsapp, no serviço de mensagem e agora há as que conversam tratando da sua vidinha como se estivessem na sala de estar lá de casa ou no seu local de trabalho, se bem que duvido que em certos empregos pudessem fazer o que vejo fazer no cinema.
Tenho a pouca sorte de apanhar sempre com uma ave dessas e invariavelmente lá estou eu a pedir/solicitar que desliguem o dito telemóvel porque a luz me está a bater em cheio na cara... que deixem de conversar porque por acaso estão numa sala de cinema e como é costume poucos são os que os desligam de ânimo leve, posto que antes de o fazer ainda resmungam e bem.
Pergunto eu: Se a pessoa está disposta a gastar dinheiro por um ingresso de cinema (que não tão barato assim) porquê não olhar para o ecrã e ver o que ali se está a desenrolar?
Se NÃO queriam ver o filme mas antes estar com os olhos pregados no telemóvel,então porquê lá ir?
Porque não aguardar serenamente que o filme chegue ao vídeo clube da sua televisão ou à venda em dvd e verem o mesmo no remanso do seu lar?
Porquê incomodar as pessoas que realmente estão ali para aquilo que vão, que é ver sossegadamente o seu filme numa sala escura, sem levar com um ecrã super iluminado na cara e ouvir conversas de negócios ou até como já me aconteceu uma zanga pelo telefone  entre marido na sala e  mulher vai lá a pessoa saber onde??
Como é tal coisa possível? 
Já cheguei no  a sair numa das salas do grupo UCI a ir à procura de um funcionário para pôr cobro a uma conversa que um homem estava a ter com outro com o filme a decorrer!
 Mas o que é isso? Que gente marada é essa que agora pululam pelos cinemas?
De onde saiu essa gente? Será que é no escurinho do cinema que sabe melhor ir coscuvilhar para o facebook, mandar mensagens ou conversar?
Não o faziam em casa, no trabalho, lá fora no átrio do cinema ou mesmo passeando pelo Centro Comercial?
Há coisa de um mês aconteceu uma cena absolutamente caricata. Já estava sentada quando um casal com uma adolescente se senta perto de mim. Mal começa o filme a garota desinteressa-se imediatamente pelo que se passava no ecrã.  Como tal, puxa do seu big telemóvel e começa  a mandar mensagens sucessivas. Eu  peço ao familiar mais próximo de mim (a adolescente sentava-se na ponta) que mande a menina desligar o telemóvel por causa da luz do ecrã que ilumina a fila e que não só me incomodava mas a outras pessoas também. 
O recado é passado à garota. O que faz ela?
Levanta-se e vai sentar-se  na ponta da fila onde passa o filme todo com o telemóvel ligado presumo  eu que sempre no facebook ou outra qualquer rede social. Quando o filme acaba e ainda com o genérico a passar levanta-se, sempre com o telemóvel ligado, sai e vai-se embora. 
Quando sai vi-os no átrio do cinema e esperaria ouvir  o casal a dar uma reprimenda à filha, mas não... quando passo por eles oiço-os simplesmente e serenamente a combinar onde ir jantar com a garota sempre de olhos postos no ecrã desinteressada completamente deles.
Perante isto nada há acrescentar, a não ser que a minha batalha contra os  telemóveis ligados durante o visionamento de um filme  continuará durante muito tempo, posto que infelizmente essa falta de civismo tão cedo desaparecerá dos nossos cinemas.

segunda-feira, agosto 22, 2016

Demónios em Néon

Realizado por Nicolas Winding Refn que já nos tinha dado os muito por mim amados "Drive" e "Só Deus Perdoa", esta sua última obra  Neon Demon,  agora em cartaz em Portugal (esteve em competição pela Palma de Ouro no último festival de Cannes e deu muito brado e apupos) é uma experiência cinematográfica um tanto ou quanto assustadora nas premissas, que são 'só' uma visão absolutamente alucinante dos bastidores do mundo da moda, onde vale tudo e quando digo   vale tudo é no sentido literal da palavra.
Com a muito segura Elle Fanning no papel principal, uma lolita de olhar cândido que Rafn põe em cena, o que aqui vemos são várias 'demónias' de salto muito alto e ar falsamente angelical que tudo fazem para singrar neste mundo tão apetecível que é o da moda, mais propriamente ser-se a melhor modelo  e onde jovens mulheres  degladiam-se numa arena muito sua, para alcançarem a visibilidade e por arrasto fama e muito  sucesso.
Nicolas Rafn não vacila e dá-nos a observar um mundo de grande perversidade, maldade, narcisismo, cupidez, e sobretudo a mais pura inveja que já me foi dado a a assistir em termos cinematográficos. 
Apesar do filme a espaços pecar por excesso de imagens com carga simbólica, a fotografia é fabulosa de bela e a musica um autêntico portento.Penso, aliás, que a mais valia do filme é a banda sonora que o pontua, completamente integrada nas imagens. Nesse aspecto o filme é soberbo!
Claro que não posso deixar de referir a prestação magnífica da Elle Fanning e do seu rosto perfeitíssimo para este papel, assim como o de Jena Malone ( um portento de actriz) a lindíssima Abbey Lee que já tínhamos visto em Mad Max e que aqui mostra estar no bom caminho, Keeanu Reeves, Christina Hendricks,Karl Clusman, Desmond Harrigton, Bella Heathcote entre outros.

Um filme Imperdível!

sexta-feira, agosto 05, 2016

Experimenter

Estreado esta semana em Portugal este Experimenter do realizador Michel Almereyda é seguramente a meu ver o acontecimento cinematográfico dos últimos meses, um dos Melhores filmes em cartaz neste momento.
 Fui vê-lo e adorei o filme do principio ao fim.
Com um elenco onde pontua o sempre excelente Peter Sarsgaard como Milgram e uma Winona Ryder em estado de graça, não esquecendo as presenças de John Leguizamo, o malogrado Anton Yelchin, Kellan Lutz, Dennis Haysbert, Antony Edwards,Taryn Manning, entre tantos outros, pena é que o filme esteja em cartaz nesta época de veraneio em que tão pouca gente vai ao cinema. Uma pena, mesmo, pois o filme é excelente.
Experimenter nada mais é do que uma amostragem fantasticamente realizada e com cenários soberbos (em estilo assumidamente  teatral) das experiências do psicólogo Stanley Milgran (e eu que já leccionei tanto Milgran aos meus alunos sem conhecer bem a fundo o  seu rico e fantástico percurso no campo da psicologia experimental).
 Esta amostragem começa em 1961 quando o mesmo leva a cabo uma série de experiências muito controversas para a época (e essa controvérsia estende-se até aos dias de hoje) onde o mesmo recorria a choques eléctricos tentando mostrar o modo como o ser humano é capaz de obedecer a ordens absurdas capazes de levar outro ser humano à morte.
Essas experiências foram inspiradas no julgamento de Adolf Eichmann, nazi capturado pela Mossad e julgado e condenado à morte por crimes de guerra. 
Assim, partindo desse julgamento o que Milgram pretendia era testar a obediência dos seres humanos a ordens em que o expoente máximo foram  homens como Eichamann, meros funcionários burocráticos ( como bem os deferiu  de Hanna Arend't) que cumprindo ordens cegas dos seus superiores hierárquicos, nunca   questionaram moral e eticamente  essas mesmas ordens, cumprindo-as sem uma consciência efectiva do que o que faziam era profundamente errado, pois o que ali estava à sua frente eram seres humanos tais como eles próprios.
 Transpostas depois  em livro., os experimentos de  Milgram  geraram bastante controvérsia nos meios académicos e não só, levando o mesmo a penar bastante até os seus méritos serem efectivamente reconhecidos. Para além do visionamento das experiências que aqui estão soberbamente realizadas, outro aspecto interessante é ficarmos a conhecer  outras experiências que o mesmo foi criando ao longo da sua curta vida, dado que o mesmo malogradamente morreu bem novo aos 51 anos de idade.
O momento da sua entrada no hospital e o a sequência burocrática do seu internamento acaba por ser caricato pois até ali Milgram percebe o quanto a obediência a regras absurdas pode levar a morte como foi o seu caso. 
Um filme imperdível a todos os títulos, até porque o mesmo faz a ligação a três filmes que abordam de uma forma soberba  a questão da obediência.
 Falo-vos dos filmes Hanna Arend't da realizadora Margarethe von Trotta, Obediência do realizador Graig Zobel  e O Leitor , uma fantástica obra de Stephen Daldry. 
Todos estes filmes são a meu ver de visionamento obrigatório!

domingo, julho 24, 2016

O Segredo dos Seus Olhos

Realizado por Juan José Campanella e baseado no livro La Pregunta de sus Ojos, de Eduardo Sacheri, este O Segredo dos Seus Olhos, filme argentino de  2009 é seguramente um dos filmes da minha vida. 
Com ele a  Argentina ganhou o seu segundo Oscar depois deste país já ter um com a película  A História Oficial (retrato muito negro  da ditadura).
Com Ricardo Dárin (actor que eu amo de corazon), a bonita e sempre segura Soledad Vilamil e o não menos estupendo Guillermo Francella, ver este filme é mergulhar no que de melhor o cinema tem. Um bom argumento adaptado de uma obra, uma soberba realização, um naipe de actores em estado de graça, diálogos inesquecíveis, encadeamento muito bem feito do passado no presente, um final assombroso e sobretudo a famosa cena de perseguição ao suspeito principal de um violento crime de violação seguido de assassinato de uma jovem mulher (locomotiv do filme)  feita de um só take e toda ela passada num estádio de futebol repleto de gente e com o jogo a decorrer. No mínimo, uma cena de antologia assim como aquele final que nunca irei esquecer.
Penso que não conheço ninguém que não ame este filme digno de todos os prémios que lhe possam ter sido atribuídos, pois o mesmo é uma autêntica obra de arte cinematográfica. 
Ontem sábado revi-o na RTP1 e foi como se nunca o tivesse visto, pois prendeu-me outra vez do princípio ao fim apesar de já saber o que ali se passava.
Refiro que Hollywood sempre atenta a esses fenómenos  vindo de fora e de considerável êxito, fez no ano passado um remake, ou antes, uma adaptação livre do mesmo filme. Resisti a ver essa incursão americana do filme de Juan Campanella feita pelo realizador Billy Ray.
Contudo, quando a vi não desgostei. Apesar de estar nos antípodas da obra original, as prestações seguras de Julia Roberts (quase irreconhecível de tão pouco maquilhada e arranjada que está) e de  Chiwetel Ejiofor conseguem segurar muito bem todo  o filme.
Esqueçanos Nicole Kidman que nada tem de parecido com o papel de Soledad Vilamil no filme original e foquemo-nos apenas e só nos dois primeiros. 
Se assim o fizermos acabamos por gostar dessa adaptação e apesar do mesmo se mover nas sequelas do  11 de Setembro, acaba por não desmerecer o tempo despendido a vê-lo. 
Apesar de tudo isso nada melhor que ver o fantástico filme argentino, posto que de  facto este é uma obra prima. 

De Cabeça Perdida

Com realização de Emmanuelle Bercot e com as magníficas prestações de Catherine Deneuve e um fantástico Rod Paradot ( seu primeiro filme), Benoit Magimel, Sara Forestier,Diane Rouxel, está em exibição em Portugal desde há uns tempos o imperdível filme francês,  "De Cabeça Erguida".
Filme de Abertura do Festival de Cannes em 2015 e vencedor de alguns prémios  como é o caso do César (2015) traça o retrato de Mallony Ferrando um adolescente que desde os seis anos é institucionalizado, ficando a cargo do Estado mais concretamente de uma juíza, papel desempenhado magistralmente por Catherine Deneuve. 
Durante duas horas o que ali vemos é a lento e desesperante trabalho de um conjunto de pessoas para trazer este jovem para o seio da sociedade.
 Não há facilitismo, pois o  que aqui se procurar mostrar é que este percurso é extremamente duro, penoso, violento, doloroso ,muito desesperante e com constantes recaídas por parte de quem vive mergulhado numa raiva quase surda em relação a uma sociedade que os não aceita e isso perpassa por todos os jovens que vemos  naquele centro de detenção juvenil onde a violência irrompe constantemente por "dá cá aquela palha".
 Ali há negros, árabes, asiáticos, europeus, jovens rapazes que  vivem constantemente no fio da navalha e a um passo da prisão e quando esta se dá muitos deles acabam por mergulhar num poço sem fundo  terminando nesse sítio a sua aprendizagem marginal. Quando finalmente saem, passam infelizmente a engrossar as estatísticas de  delinquentes que pululam as sociedades dos nossos dias. 
Em De Cabeça Erguida assistimos ao drama bastante penoso de Mallory que está em conflito com toda a gente e principiante com ele próprio. 
Vive permanentemente  em fúria.
 Parece que odeia tudo e todos e odeia-se principiante a sim próprio.
Perdeu-se o número de tutores que já teve. Vemos no início que os agride e só ganha amizade e respeito por um ( o magnifico Benoit Magimel)  que o irá enfrentar pois também ele já foi um "Mallony " e conseguiu sair de cabeça erguida. 
A própria relação que mantém, com a mãe (uma mulher totalmente desestruturada) é conflituosa, uma mistura de amor/ódio. 
Ama o irmão mais novo e parece-nos que a única pessoa que respeita no mundo é a juíza que o institucionalizou quando foi abandonado pela mãe. 
Respeita-a porque sabe ela é a única que sempre se interessou por ele. Manda-lhe postais ilustrados  do centro de detenções e alegra-se quando vê na sua secretária a pedra que ele lhe ofereceu.
 É semi analfabeto, pois abandonou sempre a escola. Ensiná-lo a ler e escrever é um trabalho hercúleo, só digno de ser feito por quem tem uma paciência de santo.
A sua raiva não o deixa atinar. Não relaxa, as mãos estão sempre fechadas.Os actos  sexuais  que tem com a namorada são sempre violentos e tumultuosas por mais carinhosa que ela tente ser. 
 Parece que de um momento para o outro vai sair da tela e esmurrar-nos. 
O pontapé que dá na mesa e atinge a educadora grávida atinge-nos também como espectadores.
 Incrível tudo o que faz e o pouco que diz.
Pouco fala porque traduz o que sente em actos. Rouba carros, guia como um louco e espatifa-os. 
Quer ser tatuador mas não sabe desenhar. Há a anotar que ali naquele centro de detenção juvenil ninguém quer trabalhos humildes. Todos querem ser grandiosos mas quase todos não sabem ler e escrever. Mallory também quer ser grandioso mas nada faz para isso.
Quase no fim do filme quando está a ser massajado pela terapeuta é aí que pela primeira vez o vemos baixar a guarda, abrir as mão e relaxar quase totalmente.
Contudo, os actos de violência não o largam e a juíza manda-o para a  prisão. Aí acalma  e começa a criar objectivos de vida.
Ao contrario da maioria dos filmes americanos que abordam o problema da delinquência, aqui não há happy end. Mesmo quando o vemos percorrer o Palácio da Justiça  finalmente livre e com o filho ao colo, interrogamo-nos se de facto ele está apto a viver em sociedade ou se aquele ciclo de violência não se perpetuará sempre...
A cena de despedida entre ele e a juíza onde esta diz  que se vai reformar é sintomática do desgaste de todo um sistema pedagógico e judicial que trabalha dia após dia e sem grandes meios para trazer centenas de jovens marginais a uma sociedade que  pouco ou nada  lhes diz.
Um filme soberbo, que nos faz pensar nesta sociedade em que vivemos e que no fim nos deixa com um sabor amargo na boca.

domingo, julho 17, 2016

A Banalidade do Mal

Sempre fui confessa admiradora da filósofa Hanna Arendt  (por causa dela e de Kant tirei este curso) e quanto mais leio sobre esta extraordinária pensadora mais admiro o quanto ela estava avançada em relação ao seu tempo.
Ao ver e ouvir jornalistas,comentadores, políticos/comentadores... sobre o tenebroso atentado em Nice e ver a  fraca e superficial reacção da pessoas ao mesmo, talvez exaustas de tanto sangue e de tanta maldade  e mais preocupadas em caçar pokémons, por jardins, casas, igrejas, museus, e outros sítios improváveis, lembrei-me das palavras de H.Arendt quando esta escreveu acerca da Banalidade do Mal e as Possibilidade da Educação Moral:

"Há alguns anos, em relato sobre o julgamento de *Eichmann em Jerusalém, mencionei a “banalidade do mal”. Não quis, com a expressão, referir-me a teoria ou doutrina de qualquer espécie, mas antes a algo bastante factual, o fenómeno dos atos maus, cometidos em proporções gigantescas – atos cuja raiz não iremos encontrar uma especial maldade, patologia ou convicção ideológica do agente. A sua personalidade destaca-se unicamente por uma extraordinária superficialidade."(Arendt, 1993, p. 145).

É precisamente esta superficialidade, desprendimento, e indiferença que é assustadora e quando mais atos bárbaros forem cometidos, mais essa banalidade do mal se introduzirá dentro das pessoas, passando os mesmos a fazer parte do seu quotidiano. 
Esta banalidade dos atos maus é a meu ver,  uma defesa humana
 para a supressão do medo e desta forma  conseguir ela mesma viver num planeta quase moribundo para os valores da paz, amizade, bondade e solidariedade para com as dores do próximo.



*Eichmann foi um nazi capturado pela Mossad, levado para Isrrael sendo depois julgado e condenado por crimes de guerra. H.Arendt a viver e a dar aulas  nos E.U.A. arte para Jerusalém onde decorre o julgamento, tendo posteriormente escrito a sua famosa obra obra "A Banalidade do Mal e as Possibilidades da Educação Moral", obra que lhe valeu fortes criticas da comunidade Judaica, mas que contudo é até hoje um marco da literatura filosófica.
O filme da realizadora Margarethe von Trotta  denominado precisamente de Hanna Arendt  com a actriz Barbara Sokowa retrata este julgamento e a postura desta filósofa perante o que ali se estava a passar.