quinta-feira, maio 17, 2018

A Morte de Estaline

Foi com estupefacção, revolta, admiração, espanto e outros adjectivos  mais que vi do principio ao fim este filme  do realizador britânico Armando Giovanni Iannucci. Falo-vos do filme A Morte de Estaline. De facto ver este filme é ficarmos de boca aberta e no fim pregados à cadeira, qual o nível de violência e da mais pura  insanidade ali mostradas após a morte do ditador Joseph Estaline em Maço de 1953. 
Não admira que o visionamento do filme tenha sido banido na Bielorússia, Cazaquistão, Quirsquistão, e na própria Rússia, visto o mesmo não deixar pedra sobre pedra sobre aqueles meses posteriores à morte do ditador e onde a luta pelo poder foi tão insana, mas tão insana que às páginas tantas qualquer loucura que saísse daquelas cabeças é por nós perfeitamente aceite posto que ali só vemos pessoas que ou estão completamente loucas  por terem vivido sob aquele regime sanguinário ou então não são seres humanos que ali nos  é apresentado, mas autênticos animais com poder sobre milhões de seres humanos que eles põem e dispõe com total impunidade. Aliás a palavra impunidade e ali grassa com total rédea solta. 
O enredo mostra a morte de Estaline e como a seguir, os membros do comité central do partido Comunista, outrora seguidores leais do ditador revelam a sua sede de poder e o que fazem par ao alcançar antes que sejam sumariamente abatidos pelos seus pares. 
Assim o que ali vemos é que vencerá aquele cuja manipulação e traição seja melhor sucedida e quem de facto levou a melhor sobre os outros foi Nikita Kruchtchev, papel brilhantemente desempenhado por Steve Buscemi. 
Pelo filme ainda andam Simon Russell Beale, Jeffrey Tambor, Paddy Considine, Tom Brooke, Olga Kurylenko, Justin Edwards e Michael Palin, entre outros, que vão dar corpo aos membros desse insano comité central. refiro que o filme foi baseado na novela gráfica com o mesmo nome, da autoria dos franceses Fabien Nury e Thierry Robin e é em termos cinematográficos uma autêntica comédia negra em tom de sátira política. Um magnífico e assustador filme sobre os meandros do poder e como isso leva à loucura quando o mesmo é exercido na sua mais plena totalidade.

William van Haescht - Sala de Arte de Cornelius van der Geest

Amo de coração esta belíssima tela do pintor  holandês Willem van Haecht, nascido em Antuérpia em 1593 e falecido na mesma cidade em 1637, intitulada de Sala de Arte Cornelius van der Geest, tela essa realizada por volta de 1628. O meu amor por esta tela prende-se ao facto de gostar muito de ver arte, dentro de arte como é aqui o caso em apreço. Toda a tela explode com outras telas e estatuária belíssima e isso é sempre uma coisa magnífica de ser observada.
A tela aqui por mim abordada, faz todo o sentido se nos lembrarmos que Haecht nasceu numa família não só de pintores mas também de negociantes de arte, muito conhecidos por pintarem há várias gerações, lindíssimos e muito requisitados  retábulos. Ora, o pintor aqui em causa vai ser um elemento da família bastante viajado entre Paris e Itália onde procurou apurar o seu engenho artístico. Na sua volta a Antuérpia ele vai ser aceite como membro importante da Guilda de S.Lucas como como mestre pintor. É esse estatuto que lhe permite assumir o cargo de administrador da importante colecção de arte do mercador Cornelius van der Geest, conhecido como muito amigo e também patrono do grande Paul Rubens. Esse importante cargo de Haecht mantém-se até a sua morte em 1637. 
Ora, a tela aqui representada vai precisamente abordar uma cena em que o coleccionador de arte Cornelius van der Geest, mostra a sua importante e extensa colecção de arte , no meio de um grupo de artistas entre os quais se encontra Rubens, Van Dick, bem como outros pintores e gente   influente de Antuérpia, a cidade que à época  reflorescia de poder e dinheiro. Também podemos tomar essa tela como uma homenagem a Van der Geest e à escola de pintura da cidade, escola essa que legou  ao mundo um espólio de arte absolutamente admirável. Esta tela é um óleo sobre madeira e pode ser apreciada no Museu Casa de Rubens (Rubenshuis) em Antuérpia.

segunda-feira, abril 09, 2018

Custódia Partilhada

Penso que este Custódia Partilhada do realizador francês Xavier Legrand, é seguramente um dos melhores filmes em cartaz nos nossos cinemas. 
É o segundo filme deste realizador e é uma obra cinematográfica absolutamente incrível de verídica, sobre os meandros da violência doméstica. 
O que ali vemos é o modus operandi de um ser absolutamente execrável (prestação muito bem conseguida do actor Denis Ménochét ) que não aceitando a separação da mãe dos filhos ( fabulosa Léa Drucker) tudo fará para a ter de novo, não se importando de se  servir do filho (incrível Thomas Gioria) para a atingir, tudo isso num crescendo de violência que nos deixa pregados à cadeira. 
Ver esse personagem a agir é ver o que de pior pode ser humano e o mais terrível é sabermos que aquilo pode acontecer em qualquer lar. 
É um filme que acaba por também ser  um verdadeiro terror realista, terror esse que quotidianamente nos entra pelas televisões adentro, onde em pleno século XXI vemos seres humanos a comportarem-se como autênticos animais julgando-se donos e senhores das mulheres, dos filhos e não hesitando em matar para conseguir os seus mais básicos instintos, que é apropriação do outro pela força.
Este Custódia Partilhada é um notável murro no estômago sobre a violência domestica e como isso pode paulatinamente levar à destruição de uma criança indefesa sobre o jugo de um progenitor abusivo e totalmente psicótico.

terça-feira, março 27, 2018

Leonardo e A Última Ceia

Agora que estamos em plena quadra da Páscoa trago aqui uma das telas mais conhecidas do grande pintor Italiano Leonardo da Vinci "A Última Ceia" que a para da sua outra obra "Mona Lisa", é talvez ou senão mesmo um dos quadros mais reproduzidos a nível mundial e objeto de estudos variados e até de reproduções miméticas, umas até bastante criativas, em que tanto Jesus Cristo como os seus discípulos, são substituídos por personagens conhecidas do mundo do cinema, do teatro  da política e até mesmo da banda desenhada como é o caso dos Simpsons. É pois uma tela absolutamente icónica e das mais vista, comentadas e reproduzidas a nível mundial.
 A Última Ceia,(1496) é uma técnica mista com 4.60x8.80cm e que pode ser apreciada no Refeitório de Santa Maria delle Grazie em Milão. Assim, o que aqui podemos ver é uma tela que continua a ser o mais famoso tratamento pictórico deste tema, que é a refeição final de Jesus Cristo com os seus Apóstolos e onde aquele profere as palavras "Um de vós trair-me-á".
 Ora, o espanto causado por essa frase vai reflectir-se nos gestos nos dinâmicos grupos de três. Jesus Cristo mantêm a calma e serenidade após proferir as palavras fatídicas, enquanto os restantes elementos se viram em grupos de três discutindo entre si sem olharem para Cristo, o que é bastante interessante de ser observado.
 O fundo da tela é espartana, posto que o que vemos é uma paisagem em tons de azul, sendo o resto em tons escuros e a geometria da sala em tons retos quase realizados a régua esquadro. A mesa também foi realizada em linhas direitas e onde predominam tons claros. Nas vestes dos discípulos predominam os azuis e os rosas.
Adoro esta ela do grande Leonardo da Vinci posto que encontro nela uma serenidade suprema e onde as personagens nela inseridas estão perfeitamente realizadas e as suas posições de tal modo dinâmicas que quase temos a sensação de em algum momento saltarem da tela ao nosso encontro.
De facto uma imortal obra prima!

O Falecimento de um Ícone

Como disse o emocionado  James Baldwin no incrivelmente fabuloso documentário "I'm Not Your Black/Eu Não Sou o Teu Negro", deveríamos estar todos lá com ela porque ela foi um marco na luta pelos direitos cívicos americanos, quanto mais não seja, porque abriu a possibilidade de haver escolas inter-raciais coisa que até aí não existia nos E.U.A. Sózinha ela entrou na escola a ser vaiada por todos os que nela andavam e com proteção policial. 
De facto a solidão desta rapariga que morreu  ontem aos 76 anos de idade e que se chama Linda Brown ao entrar na escola onde apenas e só queria aprender mais perto de casa e não andar quilómetros para frequentar uma escoa só para negros, é um murro no estômago em todos nós. Dai eu considerar que neste documentário realizado por Raoul Peck e narrado por J.Baldwin é o do melhor que já vi sobre os anos terríveis da luta dos negros norte americanos pelos  direitos mais básicos.Grande Linda Brown, que a tua alma descanse em paz.

sexta-feira, março 23, 2018

As Nossas Aprendizagens

MaryCassat-Crianças Brincando na Praia
Há dias fui almoçar  a um centro comercial com um primo meu que tem duas crianças pequenas e cujas idades diferem pouco uma da outra. O que vi foi uma coisa que acontece sempre nas crianças e com maior acuidade entre irmãos, que é o a criança mais nova  imitar os comportamentos do irmão mais velho, mesmo que aqui no caso em apreço as idades diferiam em um ano e meio uma da outra. Sendo elas muito agitadas e com propensão para o disparate (devido à tenra idade) às páginas tantas a mais nova desata a despir-se porque viu a irmã mais velha a fazê-lo alegando estar cheia de calor. Depois uma quis ir a casa de banho fazer xixi e a outra disse que também queria ir.   Evidentemente que  o querer ir foi um mero comportamento mimético da irmã mais velha, posto que la chagadas ela declara que não tinha vontade.  O mais engraçado foi que enquanto uma era dada a choros para obter o que queria, a outra  a mais nova,  manteve-se ali firme sem nunca embarcar nesse vale de lágrimas da irmã mais velha que através delas procurava alcançar os seus objetivos. Aqui não houve um comportamento mimético e o meu primo disse que isso verificava-se porque a mais nova não era nada dada a choros e gritarias e  até por vezes se desgastava com os berreiros  da irmã, coisa que não deixei de achar um piadão.
 No meio disto tudo, ele  tentava ensinar-lhes modos de comportamento social, neste caso o modo de estar num restaurante algo que elas iam interiorizando lentamente. Quando me apanhei sozinha, dei por mim a pensar que o  carácter intencional da aprendizagem é uma característica particular do ser humano. Este caracteriza-se, simultaneamente, pelo seu dinamismo, ao estar sempre em mutação e procurar novas informações para a aprendizagem. É ainda criador, ao procurar novos métodos que permitam a melhoria da própria aprendizagem, por exemplo, pela tentativa e erro. Uma das meninas depois do almoço quis andar num parque que havia no centro comercial  onde nos encontrávamos e verifiquei que  no inicio ela  teve alguma dificuldade em entrar  por um tunelzinho que lá havia tentando ir  atrás da irmã mais velha. Contudo, ao fim de pouco tempo e depois de algumas tentativas falhadas, lá conseguiu entrar para  o mesmo e dali escorregar sem grande dificuldade. Assim, podemos observar que para desenvolvermos  o nosso processo de aprendizagem, todos nós seres  seres humanos necessitamos de estímulos externos (neste caso o querer imitar a irmã que se estava a divertir) e internos, como a motivação e a necessidade. Este processo provoca uma transformação qualitativa na estrutura mental daquele que aprende, sendo, por isso, um processo pessoal que envolve a totalidade da pessoa. 
Por isso as crianças devem brincar, mexer em objetos, pintar, criar puzzles, para através desses mesmos objetos desenvolverem não só coordenação motora mas conseguir superar as dificuldades inerentes a qualquer nova aprendizagem. 
Deste modo durante  a aprendizagem, ocorre a interiorização de uma série de comportamentos e capacidades intelectuais, a aquisição de novos conhecimentos e o desenvolvimento de competências. Verifica-se também assim a  alteração de conduta de um indivíduo, em que as informações adquiridas podem ser absorvidas através de técnicas de ensino ou pela mera aquisição de hábitos, como por exemplo lavar as mãos antes das refeições, escovar os dentes ao levantar-se da cama, etc. 
Graças à capacidade para aprender, o ser humano consegue uma melhor adaptação ao meio que o rodeia, verificando-se que a maior parte da aprendizagem que o homem adquire é consequência da imitação de outras pessoas, como era aqui o caso de uma das crianças em relação à outra. Nessas idades verifica-se que os irmãos, os pais, os primos, os amigos tornam-se "alvos" preferências para a imitação da criança e se a mesma não tiver bons "alvos" a sua aprendizagem tornar-se-á deficitária visto o modelo a seguir ser um modelo errado. Isso poderá prejudicar o individuo para sempre a menos que o mesmo consiga superar esses modelos arranjando outros mais em consonância com aquilo que a sociedade lhe exige.
Há que também haver motivação para a aprendizagem. Uma criança se for bem motivada aprenderá muito melhor e mais depressa e sobretudo aprenderá com satisfação, assim como a diversidade da informação. Qualquer individuo e em especial uma criança gosta de diversificar a sua aprendizagem. Se a mesma for repetitiva, maçadora, assustadora e até impaciente, este tende a afastar-se e com mais razão o fará uma criança que ainda não adquiriu os mecanismos básicos para um foco naquilo que tem de aprender. 
O estado  emocional de um individuo também vai influenciar o modo como este aprende uma vez que existe uma propensão para recordarmos melhor os acontecimentos que se encontram associados a experiências especialmente felizes, tristes ou dolorosas.  Além disso, também nos lembramos melhor dos acontecimentos quando estamos atentos, o que significa que o interesse reforça a aprendizagem. Deste modo, compreende-se que o processo de aprendizagem é de suma importância para o estudo do comportamento do ser humano e ela deve verificar-se desde tenra idade.    

sábado, março 17, 2018

Conformismo

Há dias estavas a falar com um amigo meu, que se me queixava de dores de cabeça e um certo mau estar porque tinha estado várias horas numa sala de reuniões em que às páginas tantas estava  toda a gente a fumar. 
 Sendo ele um não fumador e com a agravante de se sentir pessimamente em ambientes de fumo, eu perguntei-lhe  o porquê de não se ter insurgido  contra as pessoas que não se importaram minimamente de estar a acender cigarro após cigarro sabendo que ele não fumava e com a agravante de os tinha advertido para esse facto.
 Ele deu-me a resposta que eu no fundo já esperava. Como ele era o único que não fumava e tendo advertido uma vez, (não tendo sido "ouvido"), acabou por se Conformar, levantando-se e abrindo a janela, apesar do frio que ali se instalou, frio esse que pareceu não incomodar grandemente os fumadores.
 Essa conversa e o tom de infelicidade demonstrado por esse meu amigo, fez-me pensar sobre as inúmeras vezes que ao longo da nossa vida nos conformamos quando estamos em minoria como era aqui o caso em apreço.
De facto,aquilo que  designamos por conformismo, remete-nos para o simples acomodar do indivíduo perante tomadas de decisão dos outros, sejam elas em palavras, gestos ou atitudes, como era aqui o caso do meu amigo.
Infelizmente, nos dias de hoje e talvez desde sempre,  as pessoas tendem muito a seguir o caminho que lhes é mais cómodo, aquele em que atingem o seu objetivo, de modo mais rápido, mas nem todas as vezes, mais produtivo e esclarecedor intelectualmente. 
O conformismo surge assim e precisamente, tanto como um modo de facilitarmos o nosso processo intelectual e  de tomada de decisão, mas também como um vínculo à integração no grupo em que nos encontramos inseridos. O desejo de aceitação do ser humano é muito poderoso e condutor de atitudes que talvez, numa outra situação, não seriam tomadas, tal como a omissão da mera opinião ou a cedência a uma ideia comum.
Talvez que se nessa sala onde o meu amigo se encontrava, estivesse apenas ele e uma outra pessoa, ele não se conformaria tão facilmente, mas estando muitas mais, ele acabou por ceder ao desejo do grupo minoritário (Stanley Milgran explica isso maravilhosamente) sofrendo as consequências desse seu acto conformista.
Todos nós, em alguma altura da nossa vida, já tivemos de nos conformar com algo, que pode ir da comida disponível para o jantar, seja na nossa casa seja na casa de pessoas amigas ou conhecidas para os quais tenhamos sido convidados, seja  ao resultado das eleições do nosso país, seja numa sala de aula, numa reunião, entre  múltiplas  situações. A vida é pois feita disso mesmo de conformismos aceitáveis a desconformismos rebeldes.
Temos pois que ter sempre em atenção que esse conformismo aceitável por nós, não tem ser necessariamente isento de espírito crítico, uma vez que aceitar uma determinada ideia ou situação não implica que esta passe a ser aquela com concordemos ou que aceitamos plenamente. Aliás, se todas as pessoas se conformassem com tudo o que a vida lhes impõem, ainda hoje viveríamos em regimes ditatoriais (já há  bastantes por esse mundo fora) ou não teríamos qualquer ideia critica daquilo que nos é dado a conhecer.  A divergência de ideias não só é extremamente  importante como é crucial ao desenvolvimento da sociedade e do nosso enriquecimento  intelectual. 
Recorrendo à minha experiência pessoal, posso admitir que houve já inúmeras situações em que me conformei perante uma ideia ou em que não expressei a minha opinião como gostaria de o ter feito, mas tento habitualmente, fazê-lo, pois acredito que a discussão de opiniões é essencial ao meu crescimento como indivíduo e como membro da sociedade. 
Foi isso que eu disse a esse meu amigo, mas no fundo eu sabia que eu naquela situação também se calhar agiria como ele, calar-me-ia, abriria a janela para arejar a sala e e como também não sou fumadora, amaldiçoaria interiormente os fumadores, tentando em outra ocasião ser bem mais precavida para esse tipo de situações tão desagradáveis.
Contudo, admito no entanto, que é-nos mais propício desencadear estas discussões em ambientes em que nos sinto mais  confortáveis e nos quais estamos certos  da sua produtividade.
Neste sentido, sinto que o conformismo apesar de permitir uma certa harmonia entre os indivíduos,posto que sem ele as discussões seriam constantes e a infelicidade imperaria, deve mesmo assim ser bem  deliberado, por cada um de nós,  e a sua utilização não nos deve fazer cair numa espécie de apatia silenciosa em que aceitemos tudo o que nos é imposto por medo de expressar as nossas opiniões.


sexta-feira, março 09, 2018

Sir Henry Raeburn-O reverendo R.Walker Patinando

O Reverendo R.Walker Patinando no Duddingston Loch
Como a Europa está toda debaixo de mau tempo e se não é a chuva como em Portugal é a neve e o gelo como na Grã Bretanha, Holanda, Itália entre outros países, lembrei de colocar aqui uma tela muito castiça realizada pelo pintor inglês Sir Henry Raeburn, nascido em Stockbridge e falecido em Edimburgo em 1823 onde podemos apreciar o reverendo Robert Walker Patinando no Duddingston Loch. De facto vemos este homem totalmente vestido de negro divertindo-se durante o inverno num lago gelado nos arredores de Edimburgo. Se repararmos toda a pose deste reverendo é exagerada e até  algo teatral.Ele patina rigorosamente vestido de negro e não dispensa o seu chapéu.  A única nota colorida é o lenço branco que o mesmo trás ao peito. Vê-se que o pintor teria grande intimidade com o seu modelo para o pintar assim de uma forma tão divertida e que este exagera na pose entrando na brincadeira. Raeburn ficou conhecido por pintar inúmeras personalidades, tais como professores, poetas, filósofos, políticos, tudo gente de Edimburgo seus conhecidos. O seu titulo de Sir foi-lhe conferido por Jorge IV em 1822, sendo um ano antes de falecer nomeado pintor oficial de sua Majestade na Escócia onde veria a falecer.

terça-feira, março 06, 2018

Os Esquecidos da Noite dos Oscares

Numa cerimónia que cada ano perde espetadores e onde tudo foi do mais previsível possível, vimos o filme A Forma da Água ganhar quatro estatuetas. Eu gostei do filme como já escrevi aqui num post anterior e não fiquei escandalizada (como muita gente) por ver este filme, que não mais é que uma bonita fábula ganhar todos esses prémios deixando o preferido de toda a gente  que era o Três Cartazes à Beira da Estrada e o Chama-me Pelo Teu Nome, para trás salvaguardando é claro o Óscar de Melhor Atriz para Frances Mc Dormand assim como o de Melhor Ator Secundário para Sam Rockwell que entra no mesmo filme. Tal como também eu já o tinha dito aqui em post anterior este Três Cartazes...não foi filme que me tivesse enchido as medidas, mas o mesmo caiu no goto de muitas gente à conta do papel de F.McDormand que obviamente nunca faz feio, mas que para mim nunca sai do mesmo registo. Vê-la aqui é quase como vê-la em Fargo, posso estar a ser injusta mas é isso que eu acho.
O que mais me espantou foi o filme A Linha Fantasma,  que para mim é de longe  o melhor filme em cartaz  neste momento e aquele que perdurará como um filme intemporal, (ao contrário deste A Forma da Água) ter saído da cerimonia apenas com o Óscar de Melhor Guarda Roupa quando estava nomeado para Melhor Filme,Realizador, Ator, Atriz Secundária, Banda sonora e Guarda Roupa. Preferia que não tivessem dado nada ao mesmo, do que reduzi-lo assim a um filme sobre o mundo da alta costura e por arrasto de bonitos vestidos. Não se percebeu a subtileza deste filme,  de uma grande riqueza visual e  emocional onde o que vemos é a procura de  de perfeccionismo nesse mesmo mundo da alta costura, por parte do seu protagonista principal o incomparável D.Day Lewis, esse sim merecedor de um Óscar, como Melhor Ator Principal quanto mais não seja porque a sua prestação  no filme em causa é de uma  delicadeza e ao mesmo tempo de uma dificuldade ímpar. O facto de só ele ter capacidade para conseguir dar vida e  alma aquele personagem atormentado, que em outro ator  tenderia a resvalar para o vulgar, é digno de todos os aplausos e por isso foi com grande tristeza que vi que esta obra prima do cinema  não ter ganho praticamente nada , quando sabemos  que o realizador Paul Thomas  Anderson ser neste momento um caso aparte no atual panorama cinematográfico, mas se repararmos, sistematicamente esquecido pela Academia de Hollywood.
 No que respeita ao filme A  Hora Mais Negra, não acho que Gary Oldman tenha sido uma má escolha como vencedor do Óscar de  Melhor Ator Principal,mas se repararmos ele apenas ganha porque tomou para si os "tiques" de W.Churchil e está caracterizado para se parecer com este último mimetizando todas as suas falas e modos de agir.
 Se isso é digno de um Óscar? Claro que é, mas para mim D.Day Lewis está bem melhor porque a sua prestação é difícil, única e de uma riqueza de expressões e modos de agir que são maravilhosos e de muito  difícil realização, só conseguida porque estamos perante um ator portentoso! 
O mesmo se passou com outro filme maravilhoso Eu Tonya que também foi esquecido na categoria de Melhor Filme  e se ele seria bem indigitado! Esse filme marcará  para sempre a carreira de Margot Robin, uma atriz de uma força única e que aqui mostra não ser apenas e só uma cara bonita. A sua transmutação neste filme é a todos os títulos espantosa. Penso que se não fosse Frances McDormand o Óscar iria com todo o mérito para ela. Valeu o Oscar de Melhor Atriz Secundária (mais que merecido) para Allison Janney numa prestação (tal como já aqui referi em post anterior) absolutamente única, como uma mãe saída dos infernos.
No compito geral,penso que este ano consagrou.-se um filme bom, mas que em vista de outros ganhou mais do que aquilo que ele merece, tendo a Academia de Hollywood esquecendo-se olimpicamente de filmes bem melhores como os  por mim acima referidos.
Outra surpresa (ou talvez não),pelo menos  para mim foi o Óscar de Melhor Filme de Animação para Coco, quando ali tínhamos uma obra prima de animação extremamente original e muitíssimo bem conseguida, que era o Loving Vincent, assim como dar o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro ao chileno Uma Mulher Fantástica, quando tínhamos o Loveless-Sem Amor, que a meu ver, era  algo bem mais poderoso que o filme ganhador. 

quinta-feira, março 01, 2018

Jan Vermeer-O Copo de Vinho

A tela que aqui aparece foi pintada por Jan Vermeer, pintor holandês entre 1660/61 e nela podemos ver duas personagens.  Um homem com um aparatoso chapéu preto segura um jarro com a mão direita depois de ter servido um copo de vinho a uma mulher que se encontra sentada. A figura dela como que domina a cena devido à cor do vestido e rosa  do lenço branco que lhe adorna a cabeça. 
Se repararmos cada elemento desta pintura foi pelo pintor muito cuidadosamente concebida e executada e para mim o copo é o elemento a destacar, posto que raramente se vê em pintura algo tão bem realizado, exceptuando talvez a tela de Pierre-August Renoir "O Lanche dos Barqueiros", onde também o copo que uma das personagens tem na boca é de uma técnica absolutamente admirável.
Se refletirmos o que Vermeer nos quis transmitir com esta sua tela, poderemos julgar que o que aqui está em causa é a moderação, visto que este pintor por mais que uma vez nos quis transmitir através das suas telas os vícios e virtudes da sociedade holandesa da altura. Esses vícios e virtudes poderiam ir da moderação que penso que é aqui o caso, ao vicio do jogo, à cupidez sexual, curiosidade....
Neste caso está em jogo aquilo que ingerimos e neste caso é a bebida. A mulher bebe vinho e está totalmente entregue a essa tarefa. Segura o copo com a mão direita e tem a esquerda pousada calmamente  no regaço. Ela não olha para o homem que a observa atentamente. Está entregue à sua bebida, mas não o faz sofregamente. Bebe com calma e ponderação e quase que conseguimos sentir o gosto da bebida na nossa própria boca. Não sabemos se este homem está dar-lhe vinho para depois a desinibir para uma aventura erótica, isso fica ao critério de quem observa a tela. O olhar dele sobre ela também não nos revela as suas intenções. Poderá estar somente a dar-lhe a provar alguma primeira colheita. O estilo do pintor vê-se na perfeita geometria dos azulejos do chão na mestria  em que pintou a janela assim como os elementos que se encontram por cima da mesa. Ao fundo da sala está uma tela que não nos permite ver o que nela está expresso.
 A luz vai incidir sobre o copo e a  cabeça envolta num toucado do elemento feminino, assim como sobre a capa que rodeia os ombros e o colo do homem iluminado desta forma a parte direita da tela e escurecendo a esquerda. 
O vestido dela ricamente executado, mostra estarmos perante um casal da classe média alta e isso também é visível na decoração da sala  bem decorada pelos padrões da época.
 Adoro esta tela, posto que como sempre estamos perante uma obra majestosa deste pintor da luz que foi Jan Vermeer.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

Eu Tonya Harding...me confesso...

Eu há muito tempo que cheguei à conclusão que a realidade ultrapassa em muito qualquer bizarria que possamos ver no cinema e é naquela que esta vai buscar tudo o que precisa para nos surpreender.
Nessa categoria está este filme do realizador  Graig Gillespie, Eu Tonya, com uma absolutamente fantástica Margot Robbie como Tonya e Allison Janney como mãe  ambas em  papeis incríveis que nos deixam pregados à cadeira do princípio ao fim.
Adorei o este filme que retrata a história verídica de Tonya Harding uma exímia patinadora, treinada desde cedo por Diane Rawlinson que acaba por fazer dela uma brilhante patinadora no gelo. 
Contudo, Tonya sempre sofreu maus tratos em casa. Primeiramente pela mãe, um ser vindo diretamente dos infernos e que Allison Janney dá corpo de uma forma absolutamente única e que irá fazer dela vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária com toda a justiça e posteriormente pelo marido Jeff Gillooly, papel muito bem desempenhado pelo ator Sebastian Stan.
A um mês das Olimpíadas de Inverno de 1994 na Noruega, Tonya vê-se envolvida num escândalo de proporções inimagináveis e com contornos absolutamente rocambolescos, quando a sua compatriota e rival Nancy Kerrigan é vitima de um "incidente" quando alguém lhe tenta partir os joelhos. Vai ser esse incidente que fez manchetes em todos os jornais mundiais que irão marcar para sempre o fim da  carreira de Tonya como patinadora no gelo, posto que a organização de patinagem artística dos Estados Unidos (que conclui que a mesma tinha conhecimento do ataque e foi conivente com o mesmo) a vai banir dos ringues de patinagem forever. 
 O filme é todo ele feito em jeito de um falso documentário, e é muito interessante vermos os personagens interagirem connosco ora negando que uma determinada situação se tenha passado daquele modo que estamos a ver, ou tentando eles próprios explicar as motivações dos seus mais insanos atos. Dos personagens mais cómicos e surpreendentemente bizarros que aqui aparecem neste Eu Tonya, está o de Paul Walter Hauser no papel de Shawn Eckhardt, um individuo completamente alucinado que se auto intitulava guarda costas de Tonya Harding e que em principio foi o "cérebro" (cérebro é um mero eufemismo) por detrás do "incidente". Esse ser que é absolutamente bronco e totalmente risível, dizia ser especialista em contra espionagem, detetive, conselheiro de governos, etc..etc...um alucinado que é a cereja encima de um bolo cheio de gente que parece vinda de um qualquer cartoon ou saídos todos de um manicómio. Ver este filme é entrar nas grandezas e misérias de uma América que tão depressa endeusa os seus heróis como os destrói num abrir e fechar de olhos, como é o caso em apreço. 
No fim do filme vemos a verdadeira Tonya Harding numa das suas muitas perfeitas actuações e é claro, a fazer o seu triplo axel a pirueta nunca antes feita por qualquer patinadora e que a catapultou para a fama,  que a mesma não soube aproveitar fruto de uma série interminável de más escolhas e da vivência num ambiente totalmente disfuncional.
 De facto, é triste vermos um talento tão grande ter sido assim despedaçado por questões do coração como era a relação dela com o marido que no fundo será a par dela própria o maior responsável pela sua irremediável queda. Um filme a vermos e a reflectirmos sobre os meandros da violência doméstica, os modos como ela se perpetua em contexto doméstico quase ad eternum e como a fama pode ser efémera pelas escolhas desastrosas que fazemos.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Um Filme Desperdiçado

É "engraçado" como um filme que tinha todas as potencialidades para ser grandioso, visto ter um bom realizador ,Ridley Scott, bons atores, Michelle Williams, e Cristopher Plummer acabou por dar com "os burros na água" e ser uma salgalhada de quase 3 horas em que as páginas tantas já só desejamos que o filme acabe o mais rapidamente possível, aliado ao facto de já sabermos como tudo aquilo terminou, visto o argumento basear-se  em eventos verídicos decorridos nos anos 70: O rapto em Itália de Paul Getty III de 16 anos, cujo resgate (17 milhões de dólares) é recusado a ser pago pelo seu avó, tido à altura como o homem mais rico do mundo.
 Falo-vos de Todo o Dinheiro do Mundo, a novíssima obra do realizador R.Scott que devido ao escândalo de assédio sexual de que Kevin Spacey vem sendo acusado, e por tal motivo, afastado do filme assim como da séria House of Cards de que era principal protagonista, teve de levar em cima com uma tremendissima remontagem, entrando para o papel de J.Paul Getty, C.Plummer que a par de M.Williams são as únicas coisas a aproveitar do filme.
Para quem estiver atento ao mesmo, verá que a remontagem que teve de ser feita em tempo record para C.Plummer poder ser indigitado ao Óscar de Melhor Ator Secundário, coisa que de facto veio a acontecer, acabou por estragar o filme tornando o mesmo algo incoerente, errático, com coisas que entram e depois não têm continuidade e com a agravante do realizador querer meter tudo no filme, o que aconteceu e o que não aconteceu, acabando este por ser um "pastelão" quase indigerível. A meu ver esta obra, e como disse mais acima, vale pela prestação dos dois atores em causa, pela música e fotografia  e pouco mais. 
Mark Wahberg está também no elenco, mas a minha relação com este ator é negativa porque cada vez que o vejo em cena em qualquer filme dito mais sério, só consigo visualizá-lo em Ted e isso é muito mau. Ele bem dá o litro e até consegue ser algo credível...mas lá está...Ted.
Do resto o que ali vemos é frases grandiosas debitadas pelo multimilionário J.Paul Getty I, a história de um rapto cujos contornos foram bastantes obscuros, um adolescente que se torna peão num jogo de múltiplos interesses, uma mãe que faz tudo mas tudo para reaver o seu filho, máfia calabresa e por arrasto italianos do pioro e sobretudo o que nos  é dado a ver  que andam todos ao mesmo...em busca de dinheiro, sendo aliás  esta a palavra que perpassa por todo o filme do início ao fim.
Curiosidade do filme: R.Scott quando pensou realizar o filme, tinha escolhido C.Plummer para o papel de J.Paul Getty I mas os produtores argumentaram que K.Spacey (devido à sua brilhante interpretação em House of Cards) seria um nome bem mais apelativo para o grande público. Cheguei a ver no youtube alguns trailers do filme em que surgia KS.
 "Guardado está o bocado para quem o há de comer",visto que devido aos eventos que já referi mais acima, tornaram a ir buscar C.Plummer  que se saiu muito bem, dado o pouco tempo que teve para se preparar para o papel, mas quem é bom é bom mesmo, apesar de todas as  circunstâncias adversas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

Três Bons Filmes

Com realização do fantástico Paul Thomas Anderson e com o incomparável Daniel Day-Lewis como actor principal este  Linha Fantasma é seguramente o melhor filme em cartaz neste momento em Portugal. Fui vê-lo e adorei, adorei, adorei, assim como me surpreendeu a prestação da atriz Vicky Krieps, do principio ao fim do filme. 
Aqui o que vemos é uma história absolutamente única, a de um homem, um costureiro famoso na na Londres da década de cinquenta que procura através das suas criações de alta costura a absoluta perfeição, acabando nessa demanda em torcidar quem com ele vive, até encontrar a sua musa, a fantástica Alma de seu nome, que irá mudar  a vida deste ser egocêntrico e perfecionista de uma forma ímpar e inusitada. 
Está de parabéns o realizador que fazendo poucos filmes, quando o faz os mesmos são sempre surpreendentes (Haverá sangue, Vício Intrínseco, Embriagados de Amor...) e está também de parabéns Daniel Day-Lewis que anunciou ser este o seu último filme enquanto ator. A ser verdade é uma perda para o cinema porque tudo o quanto este singular ator faz é sempre sublime e prova disso são os três Óscares que possui nos eu curriculum. 
Um filme a não perder de forma alguma.

De Guilermo del Toro, este A Forma da Água é uma fábula absolutamente inesquecível. Vê-la foi recordar um pouco esse seu anterior filme, o  fantástico O Labirinto do Fauno, só que aqui com adultos como principais atores, posto que neste Labirinto de Fauno o que víamos era a guerra civil espanhola pelos olhos de uma criança muito especial, encarregue da realização de três hercúleos trabalhos para se que ela e a sua mãe pudessem livrar-se de um padrasto absolutamente sinistro.. Filme inesquecível esse.
Voltando a este A Forma da Água o que aqui temos é os tempos da guerra fria e da conquista da lua entre americanos e soviéticos, tendo como peão um fantástico ser marinho arrancado à força de um lago na América do Sul, para uns laboratórios secretos onde terá como fim experimentos científicos. É também a história da muda Elisa Esposito, (a fantástica Sally Hawkins), empregada de limpeza desse laboratório,  que se liga a este ser belo e único e que fará tudo para o libertar, com a ajuda da sua colega de limpezas a sempre surpreendente Otávia Spencer e de um suis generis vizinho o ator Richard Jenkins. Refiro  também que o ator Michael Stulhbarg também aparece num bom papel de cientista com consciência. Eu cada vez gosto mais deste ator tal como já o tinha referido quando abordei em post anterior o filme Chama-me Pelo teu Nome.
Michael Gambon num papel à sua medida, o do verdadeiro monstro de maldade deste filme maravilhoso, que está merecidamente indigitado aos Oscares  em 13 categorias.
Não posso deixar de abordar o papel de Doug Jones como o monstro marinho, ele que já tinha sido no Labirinto de Fauno, o homem de pele branca.. Acrescento aqui que este ator, talvez pelas suas características faciais, é muitíssimo requisitado, para papéis em que aparece profundamente e irreconhecidamente caracterizado. Podemos vê-lo como vampiro na série The Strain (série essa com argumento de Guilhernmo del Toro), em Star Trek,  Buffy, HellBoy I e II, Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, no já citado Labirinto de Fauno , entre outros filmes...de facto incrível esta faceta tão interessante deste actor..
Aqui neste A Forma da Água ele é simplesmente maravilhoso, assim como toda a história e espero que Guilermo del Toro leve para casa muitas das estatuetas a que está nomeado porque o filme é muito bom.

Por último,queria aqui abordar um outro filme que espero que não passe despercebido que é o Loveless-Sem Amor, filme russo do realizador Andrey  Zvyagintsev, o mesmo que já nos tinha dado o Elena e Leviatã este ultimo também há dois anos candidato a Melhor Filme em Língua estrangeira, tal  como está este Loveless este ano.
O filme é de facto muito bom e com a marca indiscutível do realizador que nos trás outra vez um labirinto triste e sufocante das relações entre os casais e tendo como pano de fundo o  desaparecimento de uma criança nada amada pelos seus progenitores e como isso vai paulatinamente destruindo qualquer hipótese de felicidade entre esse mesmo casal.
Um filme que é a espaços um murro no estômago tal o desapego de um casal por um filho que nunca foi desejado, nunca foi amado, nunca foi querido por qualquer dos progenitores, ao ponto do seu desaparecimento ter alertado primeiro a professora antes dos pais. O que aqui vemos é uma Rússia fria, distante, em que cada um vive imerso na procura da sua própria felicidade mesmo que a mesma seja feita sobre a infelicidade dos demais.
Um filme que nos faz refletir sobre a frieza e complexidade das relações humanas. Penso que este filme seria um justo vencedor de um Óscar.

segunda-feira, janeiro 22, 2018

Um bom filme, mas....

Confesso que foi uma desilusão para mim assistir a este último filme de Luca Guadagnino, que faz parte da Trilogia sobre o Desejo onde o primeiro foi Eu Sou o Amor com a fantástica Tilda Swinson, o segundo Mergulho Profundo e este ,Chama-me pelo Teu Nome. 
De facto, estava a espera de outra coisa bem mais profunda, até porque o que aqui vemos, já assistimos em outras obras sobre a descoberta do amor na adolescência, só que aqui é a descoberta da homossexualidade, por parte de um jovem culto oriundo de uma família bem estruturada a nível monetário e cultural. 
Ambientado nos anos de 1983,  a fotografia é lindíssima, as paisagens mostram-nos  uma Itália  de postal de sonho, os lugares onde tudo é passado são sítios de nos tirar o fôlego, o casarão onde se passa a ação um must, toda aquela envolvência cultural do qual faz parte um pai professor de História das Artes e uma mãe tradutora, são de nos babarmos para cima deles de tanta  saber que ali há, a música absolutamente fantástica e muito bem entrosada com o decorrer da  ação...mas...e aqui está o busílis da questão...ali nada se passa a não ser mesmo o amor daquele belo, culto e interessante  jovem, pelo aluno do seu pai que vai fazer com que aquele acabe por descobrir a sua homossexualidade e com ela a dor da perda e por conseguinte as dores do crescimento com tudo o que isso acarreta.
 Aflorando de revês a turbulenta Itália política daqueles tempos(pena essa parte não ter sido mais aprofundada) a maior parte do filme somos confrontados com paisagens e pouco mais. Mesmo as cenas de amor entre ambos, nada têm de especial posto  que já vimos aquilo em outros filmes e bem mais aprofundadas e até bem mais interessantes.
 Talvez devido à sua longa duração, o filme  a páginas tantas acaba até por ser algo maçador porque realmente ali nada acontece de importante e mesmo os diálogos acabam por se fundir em duplas intenções, recurso algo já batido.
 Não podemos deixar de verificar que a prestação tanto de Armie Hammer e   principalmente de Timothée Chalamet são soberbas, até porque isso nem está em causa. Contudo, penso que deveriam ter explorado bem mais o papel do pai deste último, o fantástico Michael Stulhbarg, porque de cada vez que este aparece  rouba as cenas visto ele ser mesmo  muito bom, e podemos constatar isso mesmo, na cena quase final em que ele tem uma conversa com o filho que para mim salva o filme todo.Tirando isso, e resumindo, julgo que este Call Me by Your Name, não terá grande hipóteses nos Oscares, se bem que vem rodeado de vários prémios em diversos festivais de cinema, nomeadamente o de Sundance.
 O filme baseia-se na obra do Italiano (de origem egípcia André Aciman) e tem argumento de James Ivory, o mesmo do incomparável Despojos de Dia, Quarto com Vista Sobre a Cidade...
Um filme a vermos e a esquecermos pouco depois, o que é pena.

terça-feira, janeiro 16, 2018

Dois Bons Filmes em Cartaz

Está em cartaz neste momento bons filmes e alguns deles são sérios candidatos a ganhar Oscares sejam eles de Melhor Ator , no caso Gary Oldman no  A Hora Mais Negra do realizador Joe Wright (Expiação,Orgulho e Preconceito, Anna Karenina...) e com uma interpretação super incrível e que amei do principio ao fim deste actor totalmente irreconhecível no papel de Winston Churchill, Um Desastre de Artista de James Franco, com James Franco e o irmão Dave Franco, e que também amei visto o realizador não reduzir o seu filme a uma mera caricatura do que foi a realização do filme The Room, tornado hoje em dia como um dos piores filmes algum dia realizado, interpretado por uma personagem algo sinistra de seu nome Tommy Wiseau, Três Cartazes à Beira da Estrada, filme esse que detestei do principio ao fim e que não entendo o porquê de tanto bruá em seu redor, e The Showman um filme que penso que não terá grandes hipóteses no que respeita a prémios se bem que  é um filme honesto e onde todos se esforçam para dali tirar algo de grandioso. 
Como referi anteriormente eu gostei muito do A Hora Mais Negra, não só pela interpretação do actor em causa como também pela história que se passa no espaço de um mês, onde o primeiro ministro  W.Churchill acabado de tomar posse, tem de decidir se faz frente ao avanço das tropas de Hitler (já com a França invadida) ou resiste com todas as consequências dessa decisão optando por esta última.
 Eu amei os discursos deste homem tão dotado da palavra. De facto ouvir os seus discursos é ouvir o que de de melhor o homem possui que de facto é o dom da palavra.
Nunca pensei que alguém pudesse ter um dom assim e de facto WC tinha-o e sabia fazer uso dela. Gary Oldman soube de uma forma magistral mimetizar este personagem tão singular na história da Grã Bretanha, quiça de toda a Europa. Sai do filme com a certeza de que já não se fazem estadista deste calibre.Está de parabéns este actor, K.S.Thomas como esposa de W.Churchill , Lily James e todo a a entourage a começar pelo realizador.
 
No campo oposto, ou seja, o da comédia ou tragicomédia a meu ver, temos o Um Desastre de Artista, filme realizado por James Franco como referi anteriormente. O que mais me espantou neste filme é que o mesmo poderia resvalar muito facilmente para uma mera caricatura do personagem em causa que é (ele ainda é vivo) Tommy Wiseau, um ser que ninguém sabe onde nasceu, posto que ele nunca o disse, mas que fala de uma forma que mostra claramente que não é americano, que possui uma fortuna que também ninguém sabe a sua proveniência e que prosseguindo um sonho, o de ser actor, vai de fracasso em fracasso até se juntar a outro fracassado da vida Greg Sestero e criarem um filme, hoje um marco da história do cinema pelos piores motivos que é o The Room. É pois a história da realização desse filme que J.Franco vai retratar neste Um Desastre de Artista e para isso vai fazer ele próprio o papel de Wiseau tendo o seu irmão Dave Franco (grande actor!) no de Greg Sestero. 
O filme é de facto fantástico porque JF consegue mimetizar passo a passo não só o que foi a realização desse filme ( e o fim do filme mostra esse processo onde o ecran é dividido em dois e de um lado vemos as cenas verdadeiras do The Room e do outro lado aquilo que J.Franco filmou), conseguindo assim dar-nos a visão de quem foi esse homem tão estranho que é Tommy Wiseau. 
Está de parabéns J.Franco e julgo que  o mesmo é de facto merecedor de todos os prémios que vier arrecadar.  


Deixei para o fim O Três Cartazes à Beira da Estrada, pelo sentimento que o mesmo deixou em mim. Eu quando vi a atribuição do  Globo de Ouro na semana passada a Frances MCDorman (atriz que eu gosto muito) e o filme ser tão aplaudido confesso que criei grandes expectativas acerca do mesmo. Quando o fui ver no domingo  foi uma desilusão total. Eu não saí ao meio do filme porque não gosto de fazer isso, mas que foi para mim uma estopada aguentá-lo até ao fim...aí isso foi.
 Há ali no filme qualquer coisa que me incomodou bastante. Achei tudo aquilo forçado, pesado, demasiadamente e esforçadamente pesado, com personagens todas elas à beira do abismo, demasiado longo sem ser necessário, com situações incoerentes e que são ali metidas "a martelo" para dar ao filme uma aura de grandiosidade que o mesmo a meu ver não possui e nem mesmo a prestação de Frances McDormand me convenceu posto que e a todo o momento só me lembrava dela em Fargo, esse sim um grande papel da parte da mesma.
 Penso que ela aqui mimetiza muito essa sua prestação em Fargo e isso vê-se nas suas expressões faciais. Ela por si só, já tem um rosto a " William Dafoe" , ou seja, o mesmo é vincadamente marcado e penso que dali não pode sair  (porque ela própria não o consegue) grandes expressões.
Assim vão buscá-la para a colocar sempre zangada coisa que ela o faz durante todo o filme, penso que...sem grande esforço.Nunca vi aquela mulher rir-se, suavizar a sua expressão...nada! Colocou uma máscara facial  e vai com ela até ao fim. Vestida com um macacão de ganga do principio ao fim,o  que aqui vemos é alguém em busca de justiça sem que contudo nos crie (a mim não criou) qualquer empatia pela sua dor. Penso que o realizador Martin McDonagh  acabou quase por reduzir a personagem a  uma mera caricatura de uma mãe em grande sofrimento pela morte de uma filha de forma bárbara, numa América profunda, aquela América onde o poder central praticamente não chega e mandam os que lá vivem. Aquela demanda desta mãe por justiça suou-me a coisa muito forçada, nada daquilo me convenceu e ainda estou também  para saber como é que Sam Rocwell está a ser tido como um grande actor e a ganhar prémios quando o papel dele é de um mero bronco sem qualquer consistência e consciência moral e a sua prestação por vezes algo forçada a meu ver.
 Enfim...dá-me ideia que estes Oscares a consagrarem este Três Cartazes.... vão ser como os que consagraram o Este País Não é Para Velhos,  um filme para mim simplesmente detestável e sem qualquer interesse, e que  foi tido como uma obra prima.
Por último, The Showman. O que há a dizer acerca dele?Bom filme com uma esforçada interpretação de Hugh Jackman. Pouco mais há a acrescentar.
A colocar as minhas fichas em todos estes filmes eu poria em um que ainda não estreou em Portugal que é A Forma da Água de Guilermo del Toro, o mesmo realizador do soberbo O Labirinto do Fauno.
 Esse sim...parece-me ser um bom   filme e que ao estrear estarei lá em menos de nada. Até lá há que ir ver A Hora Mais Negra e Um Desastre de Artista. Dois magníficos filmes em cartaz.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

Claude Monet-Madame Monet sobre o Canapé

Num dia como o de hoje cheio de chuva, vento e frio apetece (quem pode) ficar sentadinha num sofá a ler e daí me ter lembrado de me debruçar sobre esta tela do pintor francês Claude Monet, onde denominada de Meditação-Madame Monet sobre o Canapé onde o que nela vemos é a mulher do pintor, a descansar sobre um canapé com um livro fechado nas mãos e em atitude de quem medita sobre a vida ou sobre o que acabou de ler. 
Monet é muito conhecido pelas suas telas feitas ao ar livre, procurando através delas captar a atmosfera através da luz e da cor. Contudo, na década de 1870 (esta tela aqui foi pintada entre 1870/71) Monet resolve recolher-se e cria este esplendor aqui presente. O que aqui vemos é um trabalho de contrate luz e cor e no qual a figura da mulher fica ligeiramente deslocada do centro, permitindo assim que o espaço seja plenamente apreciado que rodeia a personagem retratada. 
Como tal, acaba por ser dada alguma importância aos aspectos decorativos da sala onde podemos apreciar os gostos decorativos da época em questão como e o caso da jarra  do leque colocados numa prateleira por cima da cabeça de Madame Monet, e que reflectem uma estética japonesa muito apreciada à época.. O canapé e o elemento colorido da composição que vai fazer contrate com o vestido escuro de Camille Monet onde o único elemento de cor vai ser a gola vermelha e a capa do livro num também num vermelho vivo. 
A luz penetra através das cortinas  iluminando parcialmente o espaço, deixando uma pequena zona  na sombra fazendo a sim realçar o tapete de cores garridas. Essa iluminação natural ressalta das pinceladas curtas e livres. O rosto Melancólico da mulher de Monet está perfeitamente recortado pela luz que incide na sala, e ao mesmo tempo, demarcado pelo penteado insinuante e pelo dito laço vermelho colocado por debaixo do seu queixo. Meditando tranquilamente Camille Monet segura um livro com naturalidade e delicadeza. 
 Adoro esta composição porque ela reflecte tranquilidade e melancolia mas ao mesmo tempo através das pinceladas coloridas a composição transformasse em algo de atraente ao olhar de quem aprecia a tela.A mesma, um óleo sobre tela, pode ser apreciada no Museu D'Orsay em Paris.

quarta-feira, dezembro 27, 2017

Baseado numa História Verdadeira

Foi com genuíno prazer que vi esta novíssima obra do realizador Roman Polanski de seu nome A Partir de uma História Verdadeira
O filme é uma adaptação ao grande ecrã da obra homónima da escritora francesa Delphine de Vigan, vencedora do Prémio Renaudot (2015), um dos mais importantes prémios franceses de literatura.
Por sua vez, o argumento  deste thriller psicológico, foi escrito por Polanski (Repulsa/ O Escritor Fantasma/O Deus da Carnificina/ Vénus de Vison...) em parceria com o grande Olivier Assayas e o filme foi apresentado fora de competição no Festival de Cinema de Cannes 2017.
Tendo o espetador de estar com imensa atenção ao que se passa no ecrã, pois nada é o que parece, o que ali vemos é a história de Delphine, uma escritora profissional que   durante uma  sessão de autógrafos do seu novo livro  conhece uma elegante e sofisticadíssima mulher  (a sempre espantosa Eva Green) que se diz sua confessa admiradora e que de um momento para o outro se insinua na sua vida acabando por dominá-la por completo, numa relação a dois cada vez mais estranha e  doentia.
O espetador vai de surpresa em surpresa, de estranheza em estranheza das situações até ao fim, e penso que a interpretação desse mesmo fim ficará a cargo de cada um de nós, visto o realizador não dar muitas pistas para tal, a exemplo do que acontece no livro.
 Eu cheguei a uma conclusão e quem ia comigo a outra. Amei o filme do principio ao fim e sem querermos acabei por  fazer uma ligação direta ao Escritor Fantasma, filme também deste realizador, posto que o  que ali vemos são as dores,torpezas e zonas sombrias  da criação literária, sendo que aqui neste seu último filme essas dores e zonas sombrias  são levadas até ao limite extremo. 
Um excelente filme feito por um grande realizador, com uma fantástica Emmanuelle Seigner, uma espantosa Eva Green e o sempre seguro Vincent Perez. Imperdível!

sábado, dezembro 23, 2017

Desejo de Boas Festas

VENHO DESEJAR AOS MEUS QUERIDOS LEITORES UM SANTO E FELIZ NATAL!
Antonio Becarelli-A Adoração dos Pastores

terça-feira, dezembro 19, 2017

Um Roda Gigante

Há muito tempo que não gostava tanto de um filme do realizador Woody Allen como gostei desta sua última obra, Roda Gigante, com uma incrível Kate Winslet (eu dava-lhe já um Óscar por este papel) um renovado Jim Belushi, uma muito boa e segura Juno Temple, um surpreendente Justin Tinberlake (sim...esse mesmo o cantor de música pop) como  competentíssimo narrador da historia. 
Passado na década dos anos 50 e num ambiente de feira e de praia, Coney Island, sitio para onde convergia toda a gente durante o verão, o que ali vemos é o amor, o desamor, a traição matrimonial, o amor filial de um pai para com uma filha reaparecida, um miúdo com tendências pirómanas e que poderia ser o elemento mais cómico se não fosse tão trágica e insondáveis as suas motivações, gansters e sobretudo personagens à beira do esgotamento emocional e nisso a personagem de K.Winslet está perfeita, numa Ginny capaz de tudo para segurar uma paixão que lhe dá ânimo para conseguir levar a sua desesperante vida por diante. É ao mesmo tempo um filme pesado e triste e que nos incomoda até bastante, porque o desamparo de todos aqueles personagens acaba por  nos dar autênticos apertos no coração e pensar o quão é difícil a busca do amor. Está de parabéns W.Allen, assim como os atores que dão o corpo a tão interessantes personagens.
Um filme imperdível,  a todos os títulos, desde a história muito bem urdida, até à fotografia que é belíssima ,passando pelo guarda roupa que é um primor.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

Uma Derradeira Viagem

Gostei muito deste Derradeira Viagem, filme baseado na obra do escritor norte americano Darryl Ponicsan e que já teve há uns anos atrás uma outra versão com Jack Nicholson, Randy Quaid e Otis Yong nos principais papéis.
Realizado por Richard Linklater, o mesmo do oscarizado Boywood, e com  Bryan Cranston, Steve Carell e  Lawrence Fihsburne, o filme mostra-nos a viagem de três amigos dos tempos da Marinha até à terra de um deles para sepultar o filho morto da guerra do Iraque. Ambientado nos anos de 2013, o que aqui vemos é as sequelas da guerra do Vietname sobre estes três homens, uma ferida nunca sarada que se vai ligar à guerra do Iraque num trágico e senpeterno retorno. Esta viagem primeiramente por carro e depois por comboio vai reaproximar estes três personagens que a vida se tinha encarregado de afastar, mas que pelos diálogos vamo-nos apercebendo que muito ainda tinha ficado por ser feito e por ser dito.
O papel mais contido vai ser entregue a Steve Carell o pai que vai a enterrar o seu filho morto de uma forma absolutamente trágica o típico exemplo de alguém que morre por estar "no sitio errado na hora errada", agravando ainda mais essa perda. 
Lawrence Fihsburne é para mim o mais interessante personagem do filme, no papel de alguém que se entregou a Deus, precisamente para fugir dos vícios adquiridos nesses tempos agitados da Marinha e que agora casado e pai de família se vê enredado um pouco a contragosto  nesta tragédia familiar. 
Por sua vez o excelente Bryan Cranston, a personagem mais truculento deste trio, mas o locomotive de toda a acção é aquele que numa primeira vista parece ser o mais insensível de todos e o mais detestável, mas que o passar do tempo vamo-nos apercebendo que é ele a cola que os vai unir aos três, alguém indispensável para fazer andar as coisas, visto aquele pai ter caído na mais profunda apatia e tristeza e aquele padre constantemente  questionar o seu papel naquela viagem. Só ele "Sal" consegue fazer o com que as coisas andem e no fim vermos que toda a sua iniciativa vai de encontro ao desejo derradeiro daquele jovem que antes de morrer escreve uma carta ao pai que é lida na cena final. É um filme em que também vemos como todo o cerimonial de homenagem aos seus mortos na guerra, é algo de bastante caro aos americanos, assim como vemos o inicio do uso dos telemóveis e da internet, algo muito bem visto pelo realizador. No fundo, gostei muito deste derradeira Viagem.
É um filme pesado, triste, mas estranhamente esperançoso, quanto mais não seja por no fim verificarmos que independentemente de tudo o que possa acontecer de trágico na vida daquelas personagens, perdurará para sempre a amizade que os liga aos três.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Bartolomé E.Murillo- A Adoração dos Pastores

Nesta obra aqui apresentada do pintor Bartolomé Esteban Murillo (1617/1682),obra essa de tendência acentuadamente naturalista, podemos ver a Virgem mostrando o Menino aos pastores.Este e sua Mãe estão bastante iluminados, tendo Murillo preferido deixar São José na penumbra. 
Junto deles, vemos dois  pastores e uma pastor que entregam as suas oferendas: uma galinha, um cordeiro magnificamente bem pintado e ovos. Este pintor confere nesta obra um grande realismo às figuras, sobretudo na zona dos pés sujos do pastor que aparece em primeiro plano. Já Caravaggio fizera o mesmo em algumas das suas obras  mostrando uma influência deste último sobre Murillo.
 A Virgem Maria vestida de cores vistosas, azuis, amarelos e ocres, é a que primeiramente capta a nossa atenção, já que a luz incide sobre ela de uma forma mais intensa em detrimento dos restantes personagens em cena. Estes aparecem algo esbatidos numa obscuridade de tons castanhos e pardos. 
A palha do estábulo é um claro exemplo do minucioso trabalho do artista, pois somos capazes de ver perfeitamente as suas fibras.O pano que envolve o Menino é de um branco alvo símbolo de pureza
 assim como os ovos oferecido pela idosa  pastora.
Esta obra magnífica (óleo sobre tela), representa para mim um bom exemplo da época natalícia e está a meu ver soberbamente executada por Bartolomé Murillo.
A mesma pode ser vista no Museu do Prado em Madrid.

terça-feira, novembro 14, 2017

A Festa

Amei do principio ao surpreendente fim, este filme A Festa, da realizadora (que eu amo de coração) Sally Potter, a mesma de um dos filmes da minha vida:Orlando com a diva (pelo menos para mim) Tilda Swinton.
Este A Festa tem apenas e só sete atores dentro de uma casa e durante uma tarde. O mote é o festejo por parte de uma das personagens femininas (a dona da casa) o facto de ter sido escolhida como ministra da saúde de um governo sombra que espera muito em breve a tomada do poder. 
No espaço de hora e meia verificamos que nada é o que parece, todos vão retirando as máscaras que usam no seu dia a dia e é aqui que Sally Potter vai escalpelizar de uma forma única, cada um destes seres, até não ficar pedra sobre pedra. Com um principio, meio e fim absolutamente surpreendente este A Festa é  para mim decididamente um dos melhores filmes em cartaz nos cinemas nacionais. 
Sally Potter vai escolher como atores para esta espécie de teatro cinematográfico, uma   Kristin Scott Thomas em estado de graça (esta actriz é de facto surpreendente em todos os aspectos) um Timoty Spall que se vem afirmando como um dos grandes atores britânicos da actualidade, apesar da avançada idade,  um Cilliam Murphy  a mostrar o bom ator que é,   Bruno Ganz que nunca faz feio, assim como Patricia Clarkson , Emily Morimer e Cherry Jones. 
É de facto um grupo de atores que dão tudo, e o resultado é sublime. Preferindo filmar a preto e branco, este filme é  a "cara" da realizadora, que escava fundo chegando ao âmago do que é o ser humano, as suas absolutas imperfeições, mostrando o que é a maldade, o egoísmo, o amor, a inveja e  também a compaixão.Um filme imperdível!

domingo, outubro 22, 2017

Amando Van Gogh

Ontem fui ver um filme que foi para mim uma experiência cinematográfica única: A Paixão de Van Gogh, (co-produção inglesa e polaca), ou no título original Loving Van Gogh
De facto, este filme realizado pelo animador britânico  Hugh Welchman (Pedro e o Lobo/2006) e pela sua esposa, a polaca Dorota Kobiela, dá-nos a conhecer os últimos dias de vida de Van Gogh, esse genial pintor holandês prematuramente falecido, durante a sua  estadia na vilazinha de Auvers-Sur-Oise, em França.
 Eu adoro este pintor e fiquei a gostar mais dele quando fui visitar em Amesterdão o museu com o seu nome e aí constatei como de facto as suas pinceladas são de uma beleza de nos tirar o fôlego. No caso em apreço, este  filme pretende ser uma possível  explicação para o mistério que rodeia a sua morte, semanas depois do mesmo se ter auto mutilado cortando uma orelha e oferecendo-a a uma prostituta de um dos bares que ele ia com alguma regularidade.
É também a primeira longa metragem completamente pintada feita até hoje no mundo, ou seja, para simplificar o que ali vemos são como quadros do artista  que ganham vida própria. 
O que mais me espantou foi que cada personagem é apresentada-nos na mesma posição em que o pintor as imortalizou para sempre e depois é que se movem.Para mim isso foi espantoso, porque para quem conhece as obras de V.Gogh ver de repente o Dr Gachet sentado a uma mesa de mão no queixo e de repente começar a falar é uma coisa sublime, assim como outros personagens que povoam o filme. Também o facto da história nos ir sendo contada por Armand Roulin filho de Joseph Roulin, o carteiro que V.Gogh imortalizou numa das suas telas, dá uma dinâmica muito grande à história, pontuada aqui e ali por alguns momentos de fino humor muito interessante.
Para que este filme de animação  pudesse ser feito foram pintados 853 quadros a óleo, feitos por mais de 100 artista, a partir das 1430 obras de Van Gogh algo que nos é dado a conhecer logo antes do filme começar. Ao todo foram usados 65 mil fotogramas, uma loucura mesmo. Os atores que aparecem estão caracterizados de uma forma sublime às personagens dos quadros e isso é de nos pasmar até ao fim. No genérico final ficamos a saber o que aconteceu aos personagens e mesmo isso é feito de uma forma super original, não esquecendo a música parte integrante do filme e que acaba por ser uma mais valia irrepreensível. Sem ser um filme recheado de nomes sonantes (coisa que achei fantástico, posto que assim fixamo-nos na história e nas imagens e não nos atores) no elenco podemos ver Douglas Booth, Jerome Flyn, Saoirse Ronan, Chris O'Dowd entre outros. Adorei o filme e achei o mesmo lindíssimo e de uma originalidade ímpar e penso que será nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação com toda a justiça.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Uma Saga Intemporal

Há muitos  anos atrás estando numa das livrarias da Europa-América, comecei a ler as primeiras páginas de um livro denominado O Clã do Urso das Cavernas, da escritora americana (de ascendência finlandesa) Jean M.Auel.
 Logo nas primeiras páginas fiquei cativada pelo livro e comprei-o. Sei que o li nessas férias em "três tempos" e depois apercebi-me que já tinham saído o livro seguinte denominado de O Vale dos Cavalos. Na altura como tinha outros livros para ler não comprei esse segundo volume. Anos mais tarde entrando numa outra livraria  que estava em liquidação vou dar com esse segundo volume e mais os seguintes todos arrumadinhos numa prateleira. 
O terceiro volume dividido em dois era Os Caçadores de Mamutes I e II o quarto volume também dividido em dois era o Planícies de Passagem I e II.
Na edição portuguesa há essa divisão de livros em livro I e livro II coisa que verifiquei não existir em outras edições como por exemplo no Brasil. Eu acabo por ter sete livros da saga e não tenho oito porque não foi editado em Portugal o Abrigo de Pedra.
Como os livros até estavam a preços bem acessíveis comprei-os a todos sem saber na altura, que essa saga tinha seguidores por tudo o que é sitio, está traduzido em inúmeras línguas, é considerado um best seller pelo número de obras vendidas, enfim...é um sucesso de vendas por todo o lado. É até  muito difícil de encontrar hoje alguns desses livros estando o Planícies de Passagem I esgotado.
 Mas que  Saga dos Filhos da Terra é essa?
 É a história de Ayla uma criança pré-histórica que devido a um sismo se separa da sua família e é encontrada quase morta num leito de rio por uma tribo de Neanderthais que por ali passavam à procura de uma nova caverna precisamente devido a esse sismo havido na região. Sendo ela Cro-Magnon e por isso com uma aparência física já distinta da tribo que a acolhe e com outras capacidades mentais bem mais evoluídas  e inventivas, cedo se destaca nessa sua nova família. O processo do seu crescimento é feito de aprendizagens várias nessa novo clã, muito sofrimento, descoberta dessas  suas capacidades mentais superiores aos demais que a rodeiam  e no fim da obra (Spoiler!) ela é expulsa do clã e parte em busca do seu próprio destino. Abre-se assim uma porta para a continuação da história. 
O que é que nos cativa em Ayla e o que nos afasta dela?
Cativa-nos a sua ingenuidade e  vulnerabilidade por se encontrar rodeada de gente desconhecida. De um momento para o outro ela vê-se sozinha num outro clã que não o seu. O facto dela ser uma sobrevivente nata faz dela uma personagem quase mítica.
 Afasta-nos a sua perfeição. De facto Ayla é o ser perfeito por excelência a começar pelo seu aspecto visual, visto ela ser a típica nórdica, alta, loura e de olhos azuis, se bem que ela própria se vê a si própria como bastante feia, em comparação com as outras mulheres do clã.
 Outro aspecto é que a  escritora, (que vemos que tem um carinho enormíssimo pela sua personagem principal) tanto a quis endeusar que demos por ela ser curandeira, cozinheira, engenheira, exímia caçadora, domadora de animais, ....enfim...aquela que todas as outras invejam e causadora de rancor até por parte dos homens que por ela se sentem atraídos/ameaçados. 
 No segundo volume  vemos que Ayla consegue viver sozinha durante anos, no Vale dos Cavalos a que o título alude, tendo por companhia animais que ela vai adotando, nomeadamente um cavalo, um lobo e um leão, até encontrar o que será o seu eterno companheiro,  Jondalar. A partir daí achei que a saga vai perdendo vigor e mesmo terceiro livro os Caçadores de Mamutes I e II a salvam desse torpor. Mesmo o triângulo amoroso que se desenvolve neste volume o salva de ser demasiadamente e exaustivamente explicativo...parecendo por vezes leitura para totós!
 Para mim Planície de Passagem I e II  vai revitalizar  a saga posto que é aqui mostrado a viagem do casal com os  seus adorados animais empreendem até a terra de Jandolar onde pretendem fixar-se, atravessando para isso parte da Europa da altura.É uma viagem cheia de aventuras, perigos e por isso a sua leitura é bem mais fácil e empolgante de ser feita. Pegamos nos livros e não conseguimos largar a sua leitura a ver se eles conseguem mesmo alcançar as terras dos familiares de Jandolar.
 Pelo que li a autora destas obras a Jean Auel, para poder escrever todos estes seis livros, (saiu em 2010 Abrigo de Pedra, não editado em Portugal e em 2013, A Mãe Terra esse sim já cá editado e posto à venda por uma outra editora que não a Europa-América) percorreu vários países em busca de conhecimentos pré-históricos, passando até por Portugal.  
Repito:vê-se que a sua pesquisa é exaustiva e por vezes até repetitiva, tanto ela nos quer mostrar com eram os feitos os tratamentos, como era confeccionado os instrumentos sejam eles de culinária ou de defesa, o modo como a higiene era realizada, as plantas certas a serem utilizadas, o enamoramento, os ritos de acasalamento,a descoberta do modo de fazer fogo, a separação de tarefas entre homens e mulheres...enfim o possível modus vivendi desses povos antigos.
Como não está editado em Portugal o Abrigo de Pedra eu não o pude ler, mas li os A Mãe Terra.
Verifico que é dos livros mais fracos da escritora. E de facto um romance histórico com perto de seiscentas páginas e a autora  continua dá a dar-nos conhecer muito da possível vida desses povos antigos .  Não deixei de o ler até ao fim, mas vê-se que a mesma quer esticar algo que já não tem por onde ser levado, há passagens muito repetitivas, até chatas se possível. Auel no afã de  colocar a par da história os que pela primeira vez lêem um dos seus livros sem o ter feito pela ordem cronológica,acaba por se estender imenso na explicação das histórias anteriores tornando a leitura por vezes algo maçadora. Isso acontece repetidamente  neste último livro,verificando-se isso no modo como ela elabora a explicação  do modo de vida e dos membros das várias famílias espalhadas pelas diversas cavernas existentes no vale. Contei várias páginas só disso o que é muito e torna tudo muito repetitivo e desgastante, posto que vendo o modo de viver de uma família vemos todas.  
Nesta obra, tal como nas anteriores, Ayla continua a ser a heroína incontestada, a que faz tudo bem, a que tem o poder de ir sempre mais longe. O amor que ela tem por Jondalar  continua intocável, mas mesmo aí poderia haver alguma atrito para apimentar a história, mas nem isso se dá.Mesmo  o pequeno atrito existente nas páginas finais entre os dois, não chega para dar alma ao livro que se perde em coisas que a meu ver são inúteis e pouco acrescentam à história. Tanta perfeição de Ayla é demais, pelo menos que a mulher tivesse algum defeito! Mesmo a sua santa ingenuidade e crendice no que os outros lhe dizem acaba por não ser um defeito mas uma virtude, posto que ela não vê maldade nos que a rodeiam. 
Contudo... eu adoro os livros desta saga...adoro de verdade!Mesmo com esses defeitos todos, acho que esta Saga dos Filhos da Terra, são livros muito bem escritos, a pesquisa da autora é de se louvar, ela escreve de uma forma muito honesta e quer sobretudo dar-nos a ver o que poderia ser o modo de vida dos nossos antepassados. Daí ela ser tão exaustiva, por vezes dá-me ideia que ela esquece que está a escrever um romance e não um livro de historia.
Os personagens apesar de algo estereotipados/maniqueístas quando há os maus são mesmo maus (verificou-se isso no primeiro livro mais do que nos outros) e quando há os bons esses são mesmo bonzinhos, acabam por nos cativar, assim como nos cativa ler o modo como esses povos viviam sempre em constante sobressalto e o que faziam para poder sobreviver nas suas cavernas. Esta é uma leitura que recomendo se conseguirem encontrar os livros desta saga de Jean M.Auel. Penso que a Ayla ficará sempre como a minha  heroína do tempo da pré história.
Curiosidade:Há um filme bastante datado, baseado na primeira obra. Nunca o vi, não sei se é bom ou não. Vi o trailer e é com a Daryl Hannah.