terça-feira, junho 06, 2017

Unidas pelo Amor

Está aí em cartaz uma obra cinematográfica nuito boa do jovem realizador polaco Tomasz Wasilewski. 
O filme chama-se United States of Love ,Estados Unidos Pelo Amor,e é a meu ver um filme extraordinário, posto que  o que aí vemos é o amor que perpassa por quatro mulheres sem que alguma o alcance por mais esforços que façam nesse sentido. O filme está construído num mosaico bem interessante em que acabando a historia de uma faz-se a ligação à história da outras sem que as linhas condutoras da ação sejam cortadas entre elas. Todas se conhecem, e todas elas vivem as sua solidão da forma mais triste possível, carregando o fardo de um amor não correspondido numa sociedade que se abre ao Ocidente (anos oitenta muito bem caracterizados através das roupas, penteados e modus  vivendi das personagens), mas que continua profundamente machista. Assim temos, Ágata que despreza o marido porque desenvolveu uma obsessão amorosa quase destrutiva pelo pároco local. Vinga-se fazendo sexo com ele (que  se arrasta atrás dela como um cachorro), usando-o apenas e só como instrumento para a lembrança do homem que ama: o padre. Até a filha ela maltrata, posto que só tem olhos para um ser que ela sabe ser  inatingível.
 O próprio ato sexual feito por esta mulher o o marido é animalesco e assustador, pois nada ali é amoroso, nada ali é digno de ser visto, tudo é violento pois só assim ela consegue sublimar a sua obsessão por alguém que ela sabe à partida que nunca terá. 
Renata  professora de literatura é levada à reforma pela diretora da escola onde trabalha. Esse seu local de trabalho era a sua segunda casa. Desocupada e vivendo nos subúrbios, zonas essas que o realizador filma soberbamente de forma a mostrar-nos como é viver em ilhas de prédios sem cor e sem alma, acaba por ter tempo livre para poder espiar o objecto do seu amor: Marzena, a jovem professora de educação física do colégio onde outrora trabalhava. É também um amor obsessivo, idêntico ao amor que ela tem pelos seus lindos pássaros que voam livremente pela sua casa. Esta casa é o seu refugio, decorada de modo à mesma se evadir da solidão em que se encontra emersa e que a faz estar em constante alerta para as chegadas e saídas do objecto da sua paixão. 
Iza a diretora do colégio, é uma mulher poderosa. Arranja-se bem, veste-se em consonância com o cargo, mas esconde um segredo. É amante há vários anos de um homem casado. Ela pensa que este ao enviuvar, irá  abrir-lhe finalmente as portas da sua casa e assim darem azo ao seu amor. Vai enganar-se redondamente, pois este já não a ama nem a pode ver à frente. O machismo dos homens é aqui posto à prova e a  história de Iza é a  meu ver a que mais mexe com o espectador. Ela é obsessivamente perseguidora no seu amor, quase doentio, por um homem que não hesita em a violentar fisicamente batendo-lhe para se libertar dela. Ela não se quer libertar dele e luta até à crueldade final. Aterrador. 
Por último temos a jovem Marzena objeto de desejo e de amor de Renata. Uma ex miss  da cidadezinha onde vivem, que nunca singrou em nada que queria, ou seja, o mundo da moda e por arrasto o da fama. Boa profissional, jovem e bonita procura o amor da forma mais torpe. Envolve-se com homens que ela julga que a colocarão no mundo que ela ambiciona, mas é óbvio que nada conseguirá. O que querem é o seu corpo jovem e disponível. Apenas a irmã Isa e Renata gostam dela. Iza através do seu amor fraternal tenta cuidar dela e a cena da realização do bolo de anos é disso exemplo e Renata que faz tudo para chamar-lhe a atenção sem que contudo Marzena se aperceba disso. 
Estão todas unidas por amores impossíveis, unidas na sua solidão e profunda tristeza. O sexo é um refugio, mas até isso é feito de uma forma feia e grosseira. 
Wasilewski não hesita em filmar corpos tal como eles são, com todas as suas im-perfeições. Não há fotoshop, o que vemos ali são os corpos daquelas mulheres e daqueles homens. A cena da piscina remeteu-me para a cena de abertura do filme Animais Noturnos do realizador Tom Ford. Os corpos tal como eles são em toda a sua plenitude. Soberbo!
No fim, saímos do cinema, eu pelo menos sai, não com uma sensação amarga de boca, mas sim com a sensação de  como é difícil alcançar o amor e como é digno de admiração a luta desenvolvida pelo ser humano para que tal seja possível. O Amor aqui está apenas na literatura e na bíblia.
Na literatura  que Renata lê para os seus alunos e que o pároco profere nas sua homilias e nas aulas de catecismo. Não existe dentro das casas, não existe entre os casais.
 No fundo aquelas mulheres acabam por ser o espelho de uma sociedade polaca em transformação acelerada, onde a mais profunda solidão e tristeza se agarra à pele destas mulheres (e no fundo à pele dos homens que com elas se cruzam)  cobrindo-os a todos com o seu manto quase irrespirável. 
De facto, um filme muito bom!

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