sexta-feira, junho 03, 2011

Frida Kahlo-Auto Retrato com cabelo cortado

A obra da artista mexicana Frida Kahlo (que já abordei aqui em posts anteriores), é toda ela constituída por quadros em que a vertente surrealista e a arte popular do México se entrecruzam de uma forma única.Contudo é difícil rotulá-la de surrealista, até porque a própria pintora sempre se opôs a esse tipo de categorizações, se bem que foi no contexto desse rótulo estilístico que ela atingiu fama considerável. Toda a sua obra tem por base a sua trágica vida, iniciada na sua juventude quando sofre um terrível acidente de viação que a marcará até ao fim dos seus dias. Aliado a esse acidente temos vários abortos (devido precisamente a esse acidente e à má formação física que padecerá para sempre), um casamento fracassado com o Muralista Diogo Rivera, ciúmes, problemas com álcool e quase uma vida inteira confinada a uma cadeira de rodas. Artista autodidacta, em 1925 sofreu um acidente de viação que mudaria a sua vida para sempre.Foi em resultado desse acidente que a sua pintura narrativa e simbólica desenvolveu aquela intensidade, aquele poder de comunicação, a partir do qual Frida Kahlo consegui tirar um propósito para o seu amargo destino.Se juntarmos a isso ao facto da artista ser comunista e a sua relação com o mundo não ser meramente contemplativa mas sim muito prática, política e controversa, temos alguém cuja arte vive de várias camadas de tensões criadores que vão da calma à mais completa agitação, do  ódio ao mais intenso amor.Foi precisamente essa paixão, no seu sentido literal de dor que fez com que Kahlo criou obras inesquecíveis.Se atentarmos na obra que aqui aparece, (1940) vemos que a mesma representa a artista numa fase da sua vida na qual por algum tempo não esteve acamada no hospital ou presa a uma cadeira de rodas. Apresenta-se sentada numa sala tristemente vazia.Vestida com um facto masculino escuro, olha para o observador não só com intensa calma, mas também com orgulho e uma ponta de desafio.É uma tela contextualizada. Meses antes a artista tinha-se divorciado de Diogo Rivera ( a sua grande paixão) após um casamento feito de traições de ambas as partes e tumultos vários, paixão essa que a fez sofrer até ao desespero. Na mão direita segura uma tesoura com o qual acabou de cortar o seu magnífico cabelo, conhecido de muitas outras pinturas.Há por todo o lado bocados de cabelo e tranças.Na parte superior da pintura a artista oferece-nos um desafio amargamente literal sob a forma de letra de uma conhecida canção mexicana:"Olha, quanto te amava, era pelo teu cabelo; agora que estás careca não te amo mais".É uma canção de amor, cantada do ponto de vista de um homem acerca do abandono de uma mulher, e a situação de tristeza e desprezo que daí resulta.Normalmente, tanto o ser abandonado como cortar o cabelo significam humilhação.Assim, o divórcio e a perda de beleza levavam uma mulher mexicana à perda da sua honra.Então a questão que colocamos é: O que aqui vemos é uma demonstração voluntária de perda de honra? Mas se assim fosse  porque se  retrataria Frida nessa pose  de olhar orgulhoso, ainda por cima marcando a sua posição vestindo-se de homem, revelando com esse traje força e poder?Estaria a artista a demonstrar uma dureza para consigo própria? Desprezo pela sua auto-comiseração?A resposta de F.Kahlo poderá estar sublinarmente na segunda mensagem que ela nos transmite com o seu olhar: temos de erguer a cabeça precisamente quando essa atitude não atrai nenhum propósito exterior, posto que só com uma atitude de auto-determinação podemos recuperar a dignidade perdida até porque essa atitude livraria a artista do fardo da feminilidade que em tempos era um bem querido!Tal como  desabafou  Frida Kahlo no auge do seu padecimento físico , "alguns nascem sob uma boa estrela, e outros na escuridão....eu sou das que para que tudo parece completamente negro".

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